domingo, 13 de setembro de 2009

Cartas De Domingo: E Meu Tão Amado Vício.

Olá, meu bem.

Chove há dias por aqui, minha vidraça está cansada de chorar. Ela tem um olhar distante, pro horizonte, como se esperasse o Sol. Por uma eventualidade, faltei ao serviço esta semana toda, e acompanhei-a no olhar esperançoso. Então víamos ao longe, o Sol sorrir, mas não se aproximava. Confinado em meu quarto, os problemas me cercaram. Fugi para os livros. Enchi meus ouvidos de algodão, ouvindo apenas minha respiração, meu sangue correndo quente e o ranger dos ossos. Minhas mãos deslizando suavemente nas páginas amareladas, costuradas por um único fio. O cheiro das páginas velhas encheu meu quarto. Flutuei. Meu grande vício. Mergulhava naquelas páginas, nadava por entre as letras. Quando tocava o fundo, me encontrava em outro mundo. Em plena França, em épocas de Revolução, algumas vezes. Outras, entre os personagens daquele romance, que leio com cuidado e leveza, sentados ao redor da lareira. Um casal. Ela é linda, me lembra você. E alucinado naquele mundo, distante daquele quarto, era interrompido subitamente por alguém me chamando. Ouvia meu nome, fraco, ao fundo, e de repente, caía num abismo. Ao me aproximar do chão, me via ali sentado, e num pulo na cadeira, vou atender à porta. Meus problemas chegaram novamente. Então os ignorei, deitei na cama, e liguei música. As notas suaves invadiam minha mente, e me faziam, mais uma vez, flutuar, sonhar com você. Tudo acabava em samba...

Fiel e eterno...

domingo, 6 de setembro de 2009

Cartas De Domingo: E O Círculo Vicioso.

Meu romance platônico.

Tenho andado distraído, desligado, meio down. Não sei descrever exatamente o que é. Já perdi a conta de quantas vezes tropecei nas calçadas da cidade, talvez por pressa, talvez por pensar em você. Quantos motoristas me amaldiçoaram e buzinaram desesperadamente para que eu saísse da frente, durante as minhas distrações e negligências ao ignorar os homens vermelhos que piscavam loucamente do outro lado da rua. Demorei algum tempo para achar palavras pra te dizer, em meio a tantas cartas que escrevi e não mandei, perdidas no meu quarto, preenchendo os vãos do guarda-roupa de portas brancas. Cobriram as janelas, emperraram a porta e têm sido meu calor nos dias de frio. Quantas, e tantas vezes te quis e te odiei. Todos os dias que decidi te esquecer e escrevi pra me redimir, pra conversar, me acalmar. Não sinto meus pés no chão, minha overdose de ódio, stress e melancolia me levaram voar por aí. Como dentro de uma bolha de sabão, meus problemas foram se afogando, meus prazeres retornaram. Devo lhe contar isso, pois, tomas parte de meu tempo. Durante minhas semanas, me distraía com a correria do cotidiano, mas, precisavas ver quanta aflição nas noites de sexta-feira. Minha cabeça se enchia de drogas, drogas estas, pensamentos indesejados que incluíam você, minha família, meu trabalho e a preocupação com meu futuro. Terminava as noites nas já conhecidas mesas de bar. Conheci alguns garçons, o Pedro e o Altair receberam até gorjeta. A que ponto cheguei. Mas saiba, meu bem, que te afogava nas doses de álcool, não possuí mais ninguém. Então voltava para casa. A pressão de todos sobre mim, todos os infortúnios, meus escrúpulos, tomavam maiores proporções, graças à cabeça já cansada de pensar. E mergulhava nos livros. Às 14h00min nos sábados, logo após acordar. Só encerrava ao fim de domingo. As semanas seguiram assim, um círculo repetente. Cada convite negado por você me levava a mais uma dose na sexta-feira. Cada reflexo disto à mais páginas dos meus autores prediletos. Trancado na fortaleza de meu quarto, meu mundo particular, continuei a repetir este processo. De qualquer maneira, sabes bem o quanto insisti para poder te mostrar o quanto gosto de você, e ao desistir percebi: o círculo repetente se viciou. Vá, meu bem, siga teu caminho. Querida e indesejada dona de meu coração, princípio de minha mais nova loucura. Continuo meu vício, encontrei o prazer do sossego nas páginas velhas de meus livros de cabeceira. Com medo do futuro e com desejo de viver, sigo viciado no meu círculo vicioso.

Te escreverei mais.


"Vai passar esse meu mal-estar, esse nó na garganta. Deixa estar. O próprio tempo dirá: água demais mata a planta." - Minha Filosofia/Casuarina

sábado, 8 de agosto de 2009

Como O Sol Se Chama Em Dias De Chuva?

“A classificação é, portanto, um exercício de poder. Um assunto relegado para o trivium, em vez do quadrivium, ou para as ciências “leves”, em vez das “pesadas”, pode muichar antes mesmo de florescer. Um livro colocado no lugar errado da prateleira pode desaparecer para sempre. Um inimigo definido como menos do que humano pode ser aniquilado. Toda ação social flui através de fronteiras determinadas por esquemas de classificação, tenham ou não uma elaboração tão explícita quanto a de catálogos de bibliotecas, organogramas e departamentos universitários.” (DARNTON, Robert; O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa”, p-249)

Dormi ontem e acordei hoje com uma frustração no peito. Fruto de minhas decepções, este demônio que me afligia trouxe-me antes algumas gargalhadas diante da situação, mas ao reorganizar melhor os fatos algo me detonou. Acordei de cabeça baixa, pé esquerdo, pouco animado pelo sol que me olhava pela janela. Desviando as roupas no chão de meu quarto, a guitarra e o violão encostados nas paredes, cheguei à janela para observar melhor. Olhando aquela zona toda, dei por conta da perda de meu poder: minha organização havia desaparecido. Tal fato, tão humilhante, ocorreu por conseqüência da semana em que corri pela cidade, desafiando a epidemia midiática que atinge toda a cidade, esquecendo da minha vida. Mergulhei em problemas tentando solucioná-los e por um puxão de orelha que levei da vida, tornei a me animar. Liguei o blues e desbravei meu quarto, armado com um frasco de álcool gel e um empenho desafiador. De uma parede a outra, debaixo da cama e dentro do guarda-roupa, retirei entulhos. Papéis, cadernos velhos, latas de cerveja e refrigerante viajavam pelos ares, aterrissavam em sacolas plásticas e tiveram por lápide a lixeira à beira da rua. Do que sobrou em meu quarto, em meio a um pouco de esperança e de ilusão, uma breve vergonha das fases passadas. Coisa natural para um ser em mudança constante. Ninguém imagina quanto prazer me traz a atitude de pisar no passado. A sensação de poder sobre tudo o que já fui e a curiosidade sobre tudo o que ainda posso ser. Me arrependi de algumas coisas que escrevi, que fiz e que falei. Algumas publicações passadas realmente me trazem más lembranças, mas não tenho direito algum de jogá-los fora. Amanhã acordarei pisando no que estou sendo hoje, cada dia me traz base para alcançar meus objetivos, e, embora minha vida seja feita de “aindas”, fato que contribuiu muito para a minha frustração, sei que um dia chegarei ao topo de meus desejos, e alcançarei isto mantendo minha abstenção diante de algumas coisas (o que chamaram de preguiça ideológica, termo que gostei muito, porém não seja exatamente isto), massacrando meu antes e torturando meu depois. Ainda não sou poliglota, ainda não sou rico e ainda não conheço a Europa. Ainda não alcancei o poder absoluto sobre as coisas, mas é apenas questão de tempo. Tenho deixado de ser infame, embora eu ainda nem tenha dado conta disto, e agora, com meu quarto organizado, reorganizei minha vida. Ninguém mais pára na minha frente, e tenho dito.

domingo, 2 de agosto de 2009

Velhos Ideais, Jogados Fora.

“A política implica antes de tudo a educação do cidadão. Apenas homens esclarecidos não se deixarão enganar por insidiosas propagandas, terão como única paixão o amor pela pátria, só eles poderão estabelecer uma sociedade justa. Enquanto não formos capazes deste esforço, permaneceremos escravos. Como moralista e como filósofo, Rosseau anuncia que os homens são responsáveis pela sociedade que fazem, qualquer que seja a escusa sociológica que possam encontrar.” (Pierre Burgelin; in: O Contrato Social, Prefácio, XXII, ROUSSEAU J.J., Ed Martins Fontes)

Entramos em guerra, meus caros, o mundo se banalizou. A sociedade anda movida por discursos viciados de delinqüentes militantes de um partido de merda qualquer. Em meu discurso humilde de alerta, de revolta, de nojo, venho contar-lhes que vi, com meus próprios olhos, assassinatos à sangue frio: caíram sobre minha calçada, a neutralidade de idéias, com um tiro no centro da testa; a honestidade foi espancada pela esperteza, e após o vigésimo soco desmaiou, terminou inconsciente; os sonhos e os objetivos ambiciosos de meus conterrâneos caíram pela metade, vencidos pelo conforto. E eu cansei. Depois de tanta desgraça, me armei e saí às ruas. Tornei-me um homem frio. Tenho lutado a cada dia contra minha personalidade impulsiva e preguiçosa. Nas últimas batalhas terminei vitorioso. Ando ambicioso, desejo carros e mansões. Meu coração se apedrejou, propositalmente. Andei chutando, humilhando e incinerando os ideais de sistemas igualitários. Reformei meus pensamentos, e recolhi toneladas de lixo ideológico. Impulsionado pelo caos, tenho caminhado em direção ao sadismo, ao individualismo e à tantos outros escrúpulos de que fugi por anos. Encontrei, no fundo do baú de minha mente, estas drogas que tanto têm me trazido prazeres. Oh, cultura que me corrompe, corrompe também a qualquer homem de boa vontade. Em meio a esta guerra que nos uniu, encontrei meu eu de verdade. Gozamos daqueles que nos ignoram, sim, ignorantes do que lhes cerca. Alienem-se à cultura, de qualquer forma. Entreguem-se à loucura. Em uma guerra é necessário definir um lado. Entramos em guerra, meus caros, o mundo está dividido. Tentei fugir do banal, do simplório e do normal, e caí na tentação dos livros. Novos amigos que andam comigo agora, que me corromperam e gargalham ao meu lado, me trouxeram ao fruto proibido. Ser expulso do paraíso é questão de ponto de vista.

"Caras como eu estão ficando chatos como solas de sapatos que se gastam com o passar do tempo" - Caras Como Eu/Titãs

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Um Último Suspiro De Healter Sheker.

Acordou, como sempre, duas horas antes de sair. Tomou seu banho, abriu as cortinas. Fez o café ainda vestindo seu roupão. Fritou um ovo, passou a manteiga sem gosto no pão francês, consumiu em pé, em frente à janela. O olhar que atravessava os vidros do sétimo andar de seu prédio estava distante do que pensava, mirando, involuntariamente, o nascer do Sol. Terminou o café. Vestiu sua calça, prendeu a fivela da cinta. Apagou as luzes ao mesmo tempo em que apanhava seu casaco e seu chapéu. Após fechar a porta, voltou buscar o livro e o cachecol. Passou na cozinha para mais um café. O elevador quebrado o obrigou a usar as escadas. Healter Sheker não estava nervoso, desceu pelos degraus sem hesitar. Tornou-se um homem frio e egoísta desde a morte de sua esposa, há dois anos. Desde o que houve, Sheker sai de seu apartamento apenas para necessidades básicas. Não tem dirigido palavras para as pessoas de seu convívio, no trabalho. Não reconheceu alguns velhos amigos, há muito desaparecidos, que encontrara numa ruazinha perto de seu prédio, num dos poucos dias ensolarados do último mês na pacata cidade em que reside. Semanas atrás, em um de seus surtos, encaixotou sua TV, computador e todos os retratos da Sra. Sheker. Abandonados num dos becos da Avenida Central, endereço de Healter, devem ter sido levados por algum anônimo qualquer. Ele vive agora cercado por seus livros. Tem mergulhado nos romances, chegou ao cúmulo de ler Shakespeare. Não descartou seus CD’s, mas tem ouvido apenas um velho álbum, já empoeirado nas prateleiras, de Elizabeth Orton. Justifica, após cantar, junto ao toca-discos, que a voz o faz sentir sua alma. O encarte encontra-se já rasgado e gasto, de tanto ficar entre as mãos suadas de Sheker, deitado no chão do apartamento, minutos antes de pegar no sono. Healter está desligado, vive em outro mundo. Não sabe das últimas notícias, não recolheu mais seu jornal. Não dialoga nem ao menos com o porteiro de seu prédio, mais uma vez passa pela recepção de cabeça baixa, passos lentos e olhos cansados. Entra no ônibus, vê alguns cartazes colados nos vidros sobre alguma epidemia. Lê superficialmente que o governo tomou medidas imediatas que chegaram ao ponto de separar os contaminados em vagões diferentes do metrô. Percebe levemente que as pessoas lhe dirigem um olhar diferente, mas não liga. A velha ao seu lado tosse. Shelker nem se move. E isto ocorre dia após dia. Shelker só quer saber de suas leituras, tem sido seu único prazer. Chega ao trabalho. Mais uma vez não responde ao bom dia da secretária. Seu chefe lhe traz mais pastas, a secretária mais recados, e Shelker continua olhando as páginas dos livros. Lê extensamente. Seu chefe se cansa e o demite. Shelker não muda seu semblante. Apanha apenas seu livro e volta para o apartamento solitário. Sabe que já contraiu a epidemia. Shelker sempre soube de tudo, para ele tanto faz. Chega ao seu apartamento, lê a última página de seu último livro. Liga mais uma vez a doce voz de Beth Orton. Deita-se no chão do apartamento, de barriga para cima. Devagar, abre os olhos. Uma última foto de sua esposa, que guardara no bolso do casaco. Shelker permanece ali enquanto as músicas repetem várias, e várias vezes. O sol nasce e se põe, dia após dia, e Shelker permanece deitado, consumido pela epidemia que massacra metade da cidade. Após 3 dias as músicas repetem, o CD já quente. O céu escurece e cai. Amanhece azul. A lua vem, o Sol se vai, mas Shelker já foi embora. Resta no chão do apartamento o rádio, o encarte, a foto e um último suspiro de alívio de Healter Sheker, residente na Avenida Central, prédio amarelo, apartamento 707, na remota cidade de Bellablume, até sete dias atrás.