Acordou, como sempre, duas horas antes de sair. Tomou seu banho, abriu as cortinas. Fez o café ainda vestindo seu roupão. Fritou um ovo, passou a manteiga sem gosto no pão francês, consumiu em pé, em frente à janela. O olhar que atravessava os vidros do sétimo andar de seu prédio estava distante do que pensava, mirando, involuntariamente, o nascer do Sol. Terminou o café. Vestiu sua calça, prendeu a fivela da cinta. Apagou as luzes ao mesmo tempo em que apanhava seu casaco e seu chapéu. Após fechar a porta, voltou buscar o livro e o cachecol. Passou na cozinha para mais um café. O elevador quebrado o obrigou a usar as escadas. Healter Sheker não estava nervoso, desceu pelos degraus sem hesitar. Tornou-se um homem frio e egoísta desde a morte de sua esposa, há dois anos. Desde o que houve, Sheker sai de seu apartamento apenas para necessidades básicas. Não tem dirigido palavras para as pessoas de seu convívio, no trabalho. Não reconheceu alguns velhos amigos, há muito desaparecidos, que encontrara numa ruazinha perto de seu prédio, num dos poucos dias ensolarados do último mês na pacata cidade em que reside. Semanas atrás, em um de seus surtos, encaixotou sua TV, computador e todos os retratos da Sra. Sheker. Abandonados num dos becos da Avenida Central, endereço de Healter, devem ter sido levados por algum anônimo qualquer. Ele vive agora cercado por seus livros. Tem mergulhado nos romances, chegou ao cúmulo de ler Shakespeare. Não descartou seus CD’s, mas tem ouvido apenas um velho álbum, já empoeirado nas prateleiras, de Elizabeth Orton. Justifica, após cantar, junto ao toca-discos, que a voz o faz sentir sua alma. O encarte encontra-se já rasgado e gasto, de tanto ficar entre as mãos suadas de Sheker, deitado no chão do apartamento, minutos antes de pegar no sono. Healter está desligado, vive em outro mundo. Não sabe das últimas notícias, não recolheu mais seu jornal. Não dialoga nem ao menos com o porteiro de seu prédio, mais uma vez passa pela recepção de cabeça baixa, passos lentos e olhos cansados. Entra no ônibus, vê alguns cartazes colados nos vidros sobre alguma epidemia. Lê superficialmente que o governo tomou medidas imediatas que chegaram ao ponto de separar os contaminados em vagões diferentes do metrô. Percebe levemente que as pessoas lhe dirigem um olhar diferente, mas não liga. A velha ao seu lado tosse. Shelker nem se move. E isto ocorre dia após dia. Shelker só quer saber de suas leituras, tem sido seu único prazer. Chega ao trabalho. Mais uma vez não responde ao bom dia da secretária. Seu chefe lhe traz mais pastas, a secretária mais recados, e Shelker continua olhando as páginas dos livros. Lê extensamente. Seu chefe se cansa e o demite. Shelker não muda seu semblante. Apanha apenas seu livro e volta para o apartamento solitário. Sabe que já contraiu a epidemia. Shelker sempre soube de tudo, para ele tanto faz. Chega ao seu apartamento, lê a última página de seu último livro. Liga mais uma vez a doce voz de Beth Orton. Deita-se no chão do apartamento, de barriga para cima. Devagar, abre os olhos. Uma última foto de sua esposa, que guardara no bolso do casaco. Shelker permanece ali enquanto as músicas repetem várias, e várias vezes. O sol nasce e se põe, dia após dia, e Shelker permanece deitado, consumido pela epidemia que massacra metade da cidade. Após 3 dias as músicas repetem, o CD já quente. O céu escurece e cai. Amanhece azul. A lua vem, o Sol se vai, mas Shelker já foi embora. Resta no chão do apartamento o rádio, o encarte, a foto e um último suspiro de alívio de Healter Sheker, residente na Avenida Central, prédio amarelo, apartamento 707, na remota cidade de Bellablume, até sete dias atrás.