sábado, 8 de agosto de 2009

Como O Sol Se Chama Em Dias De Chuva?

“A classificação é, portanto, um exercício de poder. Um assunto relegado para o trivium, em vez do quadrivium, ou para as ciências “leves”, em vez das “pesadas”, pode muichar antes mesmo de florescer. Um livro colocado no lugar errado da prateleira pode desaparecer para sempre. Um inimigo definido como menos do que humano pode ser aniquilado. Toda ação social flui através de fronteiras determinadas por esquemas de classificação, tenham ou não uma elaboração tão explícita quanto a de catálogos de bibliotecas, organogramas e departamentos universitários.” (DARNTON, Robert; O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa”, p-249)

Dormi ontem e acordei hoje com uma frustração no peito. Fruto de minhas decepções, este demônio que me afligia trouxe-me antes algumas gargalhadas diante da situação, mas ao reorganizar melhor os fatos algo me detonou. Acordei de cabeça baixa, pé esquerdo, pouco animado pelo sol que me olhava pela janela. Desviando as roupas no chão de meu quarto, a guitarra e o violão encostados nas paredes, cheguei à janela para observar melhor. Olhando aquela zona toda, dei por conta da perda de meu poder: minha organização havia desaparecido. Tal fato, tão humilhante, ocorreu por conseqüência da semana em que corri pela cidade, desafiando a epidemia midiática que atinge toda a cidade, esquecendo da minha vida. Mergulhei em problemas tentando solucioná-los e por um puxão de orelha que levei da vida, tornei a me animar. Liguei o blues e desbravei meu quarto, armado com um frasco de álcool gel e um empenho desafiador. De uma parede a outra, debaixo da cama e dentro do guarda-roupa, retirei entulhos. Papéis, cadernos velhos, latas de cerveja e refrigerante viajavam pelos ares, aterrissavam em sacolas plásticas e tiveram por lápide a lixeira à beira da rua. Do que sobrou em meu quarto, em meio a um pouco de esperança e de ilusão, uma breve vergonha das fases passadas. Coisa natural para um ser em mudança constante. Ninguém imagina quanto prazer me traz a atitude de pisar no passado. A sensação de poder sobre tudo o que já fui e a curiosidade sobre tudo o que ainda posso ser. Me arrependi de algumas coisas que escrevi, que fiz e que falei. Algumas publicações passadas realmente me trazem más lembranças, mas não tenho direito algum de jogá-los fora. Amanhã acordarei pisando no que estou sendo hoje, cada dia me traz base para alcançar meus objetivos, e, embora minha vida seja feita de “aindas”, fato que contribuiu muito para a minha frustração, sei que um dia chegarei ao topo de meus desejos, e alcançarei isto mantendo minha abstenção diante de algumas coisas (o que chamaram de preguiça ideológica, termo que gostei muito, porém não seja exatamente isto), massacrando meu antes e torturando meu depois. Ainda não sou poliglota, ainda não sou rico e ainda não conheço a Europa. Ainda não alcancei o poder absoluto sobre as coisas, mas é apenas questão de tempo. Tenho deixado de ser infame, embora eu ainda nem tenha dado conta disto, e agora, com meu quarto organizado, reorganizei minha vida. Ninguém mais pára na minha frente, e tenho dito.

7 comentários:

. ana . disse...

[...] sei que um dia chegarei ao topo de meus desejos.
Mas se você é inconstante, seus desejos não deveriam estar subordinados a mesma condição?

Vinicius Nascimento disse...

Interessante você perguntar isto, talvez comente num próximo texto. Mas acho que minha "inconstância" funciona como um "desespero" de alcançar meus objetivos. Eu mudo pra conhecer novos caminhos, e de repente um atalho até o ponto final.

Valeu a pergunta, vou perder o sono pensando nisso.

. ana . disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
. ana . disse...

"Ainda não alcancei o poder absoluto sobre as coisas"
O dia em que você alcançar o poder absoluto sobre as coisas, viverá num estado de graça constante.
Uma tal de Lispector entende por isso aqueles exíguos momentos em que somos livres.
Eu só consigo atingir tal façanha quando me esqueço, e quando isso acontece eu sinto como se tivesse um poder absoluto sobre mim.
Mas imagine viver num estado de graça constante?
Só se preza pela liberdade quando se conhece a antítese do termo.

Você é muito ambicioso por almejar um poder absoluto sobre as coisas,
mas será que isso é possível de fato?
Me esclareça.
;*

J. disse...

Sustento a pergunta acima, e uma pequena dúvida,
Sem saber que são tais coisas, por que desejar tão arduamente possuí-las e dominá-las?


PS.: Adorei o blog, escreves muito bem.

Vinicius Nascimento disse...

Acho que todos temos um tipo de dupla personalidade, é um outro "eu" que nos segura, nos prende no princípio das coisas. Um medo, talvez, que deve ser aniquilado, e só nós podemos fazer isso.

Obviamente, para vencer um inimigo é preciso conhecê-lo. Atinjo novas idéias todos os dias esperando entender essa frustração, acredito que quando eu tiver esse poder absoluto sobre mim mesmo alcançarei a liberdade. Acho que antes de nos "libertarmos" para o mundo, é preciso uma "auto-liberdade", ou um "auto-poder".

Quando alcançar a liberdade, estarei também ao alcance de qualquer coisa que eu quiser alcançar, e entre elas, todos os meus sonhos e objetivos.

Então, esse poder absoluto é sobre minhas próprias coisas. Um estado de equilíbrio que varre desde a organização do meu quarto até a organização das minhas idéias. Esse equilíbrio é que dá base a qualquer outro ideal, acredito. É impossível sustentar um ideal se não temos poder nem mesmo sobre nós mesmos.


Não sei se fui claro, eu fui comentar e deu pau aqui no blog. Hahaha.

Obrigado pelos comentários! Isso me deixa muito alegre!

Beijos.


PS: Devo salientar também que nenhuma explicação minha é melhor que a interpretação de vocês, mesmo assim, não dispenso críticas, muito pelo contrário.

. ana . disse...

tá esclarecido!
;*