domingo, 13 de setembro de 2009

Cartas De Domingo: E Meu Tão Amado Vício.

Olá, meu bem.

Chove há dias por aqui, minha vidraça está cansada de chorar. Ela tem um olhar distante, pro horizonte, como se esperasse o Sol. Por uma eventualidade, faltei ao serviço esta semana toda, e acompanhei-a no olhar esperançoso. Então víamos ao longe, o Sol sorrir, mas não se aproximava. Confinado em meu quarto, os problemas me cercaram. Fugi para os livros. Enchi meus ouvidos de algodão, ouvindo apenas minha respiração, meu sangue correndo quente e o ranger dos ossos. Minhas mãos deslizando suavemente nas páginas amareladas, costuradas por um único fio. O cheiro das páginas velhas encheu meu quarto. Flutuei. Meu grande vício. Mergulhava naquelas páginas, nadava por entre as letras. Quando tocava o fundo, me encontrava em outro mundo. Em plena França, em épocas de Revolução, algumas vezes. Outras, entre os personagens daquele romance, que leio com cuidado e leveza, sentados ao redor da lareira. Um casal. Ela é linda, me lembra você. E alucinado naquele mundo, distante daquele quarto, era interrompido subitamente por alguém me chamando. Ouvia meu nome, fraco, ao fundo, e de repente, caía num abismo. Ao me aproximar do chão, me via ali sentado, e num pulo na cadeira, vou atender à porta. Meus problemas chegaram novamente. Então os ignorei, deitei na cama, e liguei música. As notas suaves invadiam minha mente, e me faziam, mais uma vez, flutuar, sonhar com você. Tudo acabava em samba...

Fiel e eterno...

domingo, 6 de setembro de 2009

Cartas De Domingo: E O Círculo Vicioso.

Meu romance platônico.

Tenho andado distraído, desligado, meio down. Não sei descrever exatamente o que é. Já perdi a conta de quantas vezes tropecei nas calçadas da cidade, talvez por pressa, talvez por pensar em você. Quantos motoristas me amaldiçoaram e buzinaram desesperadamente para que eu saísse da frente, durante as minhas distrações e negligências ao ignorar os homens vermelhos que piscavam loucamente do outro lado da rua. Demorei algum tempo para achar palavras pra te dizer, em meio a tantas cartas que escrevi e não mandei, perdidas no meu quarto, preenchendo os vãos do guarda-roupa de portas brancas. Cobriram as janelas, emperraram a porta e têm sido meu calor nos dias de frio. Quantas, e tantas vezes te quis e te odiei. Todos os dias que decidi te esquecer e escrevi pra me redimir, pra conversar, me acalmar. Não sinto meus pés no chão, minha overdose de ódio, stress e melancolia me levaram voar por aí. Como dentro de uma bolha de sabão, meus problemas foram se afogando, meus prazeres retornaram. Devo lhe contar isso, pois, tomas parte de meu tempo. Durante minhas semanas, me distraía com a correria do cotidiano, mas, precisavas ver quanta aflição nas noites de sexta-feira. Minha cabeça se enchia de drogas, drogas estas, pensamentos indesejados que incluíam você, minha família, meu trabalho e a preocupação com meu futuro. Terminava as noites nas já conhecidas mesas de bar. Conheci alguns garçons, o Pedro e o Altair receberam até gorjeta. A que ponto cheguei. Mas saiba, meu bem, que te afogava nas doses de álcool, não possuí mais ninguém. Então voltava para casa. A pressão de todos sobre mim, todos os infortúnios, meus escrúpulos, tomavam maiores proporções, graças à cabeça já cansada de pensar. E mergulhava nos livros. Às 14h00min nos sábados, logo após acordar. Só encerrava ao fim de domingo. As semanas seguiram assim, um círculo repetente. Cada convite negado por você me levava a mais uma dose na sexta-feira. Cada reflexo disto à mais páginas dos meus autores prediletos. Trancado na fortaleza de meu quarto, meu mundo particular, continuei a repetir este processo. De qualquer maneira, sabes bem o quanto insisti para poder te mostrar o quanto gosto de você, e ao desistir percebi: o círculo repetente se viciou. Vá, meu bem, siga teu caminho. Querida e indesejada dona de meu coração, princípio de minha mais nova loucura. Continuo meu vício, encontrei o prazer do sossego nas páginas velhas de meus livros de cabeceira. Com medo do futuro e com desejo de viver, sigo viciado no meu círculo vicioso.

Te escreverei mais.


"Vai passar esse meu mal-estar, esse nó na garganta. Deixa estar. O próprio tempo dirá: água demais mata a planta." - Minha Filosofia/Casuarina

sábado, 8 de agosto de 2009

Como O Sol Se Chama Em Dias De Chuva?

“A classificação é, portanto, um exercício de poder. Um assunto relegado para o trivium, em vez do quadrivium, ou para as ciências “leves”, em vez das “pesadas”, pode muichar antes mesmo de florescer. Um livro colocado no lugar errado da prateleira pode desaparecer para sempre. Um inimigo definido como menos do que humano pode ser aniquilado. Toda ação social flui através de fronteiras determinadas por esquemas de classificação, tenham ou não uma elaboração tão explícita quanto a de catálogos de bibliotecas, organogramas e departamentos universitários.” (DARNTON, Robert; O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa”, p-249)

Dormi ontem e acordei hoje com uma frustração no peito. Fruto de minhas decepções, este demônio que me afligia trouxe-me antes algumas gargalhadas diante da situação, mas ao reorganizar melhor os fatos algo me detonou. Acordei de cabeça baixa, pé esquerdo, pouco animado pelo sol que me olhava pela janela. Desviando as roupas no chão de meu quarto, a guitarra e o violão encostados nas paredes, cheguei à janela para observar melhor. Olhando aquela zona toda, dei por conta da perda de meu poder: minha organização havia desaparecido. Tal fato, tão humilhante, ocorreu por conseqüência da semana em que corri pela cidade, desafiando a epidemia midiática que atinge toda a cidade, esquecendo da minha vida. Mergulhei em problemas tentando solucioná-los e por um puxão de orelha que levei da vida, tornei a me animar. Liguei o blues e desbravei meu quarto, armado com um frasco de álcool gel e um empenho desafiador. De uma parede a outra, debaixo da cama e dentro do guarda-roupa, retirei entulhos. Papéis, cadernos velhos, latas de cerveja e refrigerante viajavam pelos ares, aterrissavam em sacolas plásticas e tiveram por lápide a lixeira à beira da rua. Do que sobrou em meu quarto, em meio a um pouco de esperança e de ilusão, uma breve vergonha das fases passadas. Coisa natural para um ser em mudança constante. Ninguém imagina quanto prazer me traz a atitude de pisar no passado. A sensação de poder sobre tudo o que já fui e a curiosidade sobre tudo o que ainda posso ser. Me arrependi de algumas coisas que escrevi, que fiz e que falei. Algumas publicações passadas realmente me trazem más lembranças, mas não tenho direito algum de jogá-los fora. Amanhã acordarei pisando no que estou sendo hoje, cada dia me traz base para alcançar meus objetivos, e, embora minha vida seja feita de “aindas”, fato que contribuiu muito para a minha frustração, sei que um dia chegarei ao topo de meus desejos, e alcançarei isto mantendo minha abstenção diante de algumas coisas (o que chamaram de preguiça ideológica, termo que gostei muito, porém não seja exatamente isto), massacrando meu antes e torturando meu depois. Ainda não sou poliglota, ainda não sou rico e ainda não conheço a Europa. Ainda não alcancei o poder absoluto sobre as coisas, mas é apenas questão de tempo. Tenho deixado de ser infame, embora eu ainda nem tenha dado conta disto, e agora, com meu quarto organizado, reorganizei minha vida. Ninguém mais pára na minha frente, e tenho dito.

domingo, 2 de agosto de 2009

Velhos Ideais, Jogados Fora.

“A política implica antes de tudo a educação do cidadão. Apenas homens esclarecidos não se deixarão enganar por insidiosas propagandas, terão como única paixão o amor pela pátria, só eles poderão estabelecer uma sociedade justa. Enquanto não formos capazes deste esforço, permaneceremos escravos. Como moralista e como filósofo, Rosseau anuncia que os homens são responsáveis pela sociedade que fazem, qualquer que seja a escusa sociológica que possam encontrar.” (Pierre Burgelin; in: O Contrato Social, Prefácio, XXII, ROUSSEAU J.J., Ed Martins Fontes)

Entramos em guerra, meus caros, o mundo se banalizou. A sociedade anda movida por discursos viciados de delinqüentes militantes de um partido de merda qualquer. Em meu discurso humilde de alerta, de revolta, de nojo, venho contar-lhes que vi, com meus próprios olhos, assassinatos à sangue frio: caíram sobre minha calçada, a neutralidade de idéias, com um tiro no centro da testa; a honestidade foi espancada pela esperteza, e após o vigésimo soco desmaiou, terminou inconsciente; os sonhos e os objetivos ambiciosos de meus conterrâneos caíram pela metade, vencidos pelo conforto. E eu cansei. Depois de tanta desgraça, me armei e saí às ruas. Tornei-me um homem frio. Tenho lutado a cada dia contra minha personalidade impulsiva e preguiçosa. Nas últimas batalhas terminei vitorioso. Ando ambicioso, desejo carros e mansões. Meu coração se apedrejou, propositalmente. Andei chutando, humilhando e incinerando os ideais de sistemas igualitários. Reformei meus pensamentos, e recolhi toneladas de lixo ideológico. Impulsionado pelo caos, tenho caminhado em direção ao sadismo, ao individualismo e à tantos outros escrúpulos de que fugi por anos. Encontrei, no fundo do baú de minha mente, estas drogas que tanto têm me trazido prazeres. Oh, cultura que me corrompe, corrompe também a qualquer homem de boa vontade. Em meio a esta guerra que nos uniu, encontrei meu eu de verdade. Gozamos daqueles que nos ignoram, sim, ignorantes do que lhes cerca. Alienem-se à cultura, de qualquer forma. Entreguem-se à loucura. Em uma guerra é necessário definir um lado. Entramos em guerra, meus caros, o mundo está dividido. Tentei fugir do banal, do simplório e do normal, e caí na tentação dos livros. Novos amigos que andam comigo agora, que me corromperam e gargalham ao meu lado, me trouxeram ao fruto proibido. Ser expulso do paraíso é questão de ponto de vista.

"Caras como eu estão ficando chatos como solas de sapatos que se gastam com o passar do tempo" - Caras Como Eu/Titãs

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Um Último Suspiro De Healter Sheker.

Acordou, como sempre, duas horas antes de sair. Tomou seu banho, abriu as cortinas. Fez o café ainda vestindo seu roupão. Fritou um ovo, passou a manteiga sem gosto no pão francês, consumiu em pé, em frente à janela. O olhar que atravessava os vidros do sétimo andar de seu prédio estava distante do que pensava, mirando, involuntariamente, o nascer do Sol. Terminou o café. Vestiu sua calça, prendeu a fivela da cinta. Apagou as luzes ao mesmo tempo em que apanhava seu casaco e seu chapéu. Após fechar a porta, voltou buscar o livro e o cachecol. Passou na cozinha para mais um café. O elevador quebrado o obrigou a usar as escadas. Healter Sheker não estava nervoso, desceu pelos degraus sem hesitar. Tornou-se um homem frio e egoísta desde a morte de sua esposa, há dois anos. Desde o que houve, Sheker sai de seu apartamento apenas para necessidades básicas. Não tem dirigido palavras para as pessoas de seu convívio, no trabalho. Não reconheceu alguns velhos amigos, há muito desaparecidos, que encontrara numa ruazinha perto de seu prédio, num dos poucos dias ensolarados do último mês na pacata cidade em que reside. Semanas atrás, em um de seus surtos, encaixotou sua TV, computador e todos os retratos da Sra. Sheker. Abandonados num dos becos da Avenida Central, endereço de Healter, devem ter sido levados por algum anônimo qualquer. Ele vive agora cercado por seus livros. Tem mergulhado nos romances, chegou ao cúmulo de ler Shakespeare. Não descartou seus CD’s, mas tem ouvido apenas um velho álbum, já empoeirado nas prateleiras, de Elizabeth Orton. Justifica, após cantar, junto ao toca-discos, que a voz o faz sentir sua alma. O encarte encontra-se já rasgado e gasto, de tanto ficar entre as mãos suadas de Sheker, deitado no chão do apartamento, minutos antes de pegar no sono. Healter está desligado, vive em outro mundo. Não sabe das últimas notícias, não recolheu mais seu jornal. Não dialoga nem ao menos com o porteiro de seu prédio, mais uma vez passa pela recepção de cabeça baixa, passos lentos e olhos cansados. Entra no ônibus, vê alguns cartazes colados nos vidros sobre alguma epidemia. Lê superficialmente que o governo tomou medidas imediatas que chegaram ao ponto de separar os contaminados em vagões diferentes do metrô. Percebe levemente que as pessoas lhe dirigem um olhar diferente, mas não liga. A velha ao seu lado tosse. Shelker nem se move. E isto ocorre dia após dia. Shelker só quer saber de suas leituras, tem sido seu único prazer. Chega ao trabalho. Mais uma vez não responde ao bom dia da secretária. Seu chefe lhe traz mais pastas, a secretária mais recados, e Shelker continua olhando as páginas dos livros. Lê extensamente. Seu chefe se cansa e o demite. Shelker não muda seu semblante. Apanha apenas seu livro e volta para o apartamento solitário. Sabe que já contraiu a epidemia. Shelker sempre soube de tudo, para ele tanto faz. Chega ao seu apartamento, lê a última página de seu último livro. Liga mais uma vez a doce voz de Beth Orton. Deita-se no chão do apartamento, de barriga para cima. Devagar, abre os olhos. Uma última foto de sua esposa, que guardara no bolso do casaco. Shelker permanece ali enquanto as músicas repetem várias, e várias vezes. O sol nasce e se põe, dia após dia, e Shelker permanece deitado, consumido pela epidemia que massacra metade da cidade. Após 3 dias as músicas repetem, o CD já quente. O céu escurece e cai. Amanhece azul. A lua vem, o Sol se vai, mas Shelker já foi embora. Resta no chão do apartamento o rádio, o encarte, a foto e um último suspiro de alívio de Healter Sheker, residente na Avenida Central, prédio amarelo, apartamento 707, na remota cidade de Bellablume, até sete dias atrás.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Toda Loucura Vai Embora Prometendo Voltar.

A vida é feita de escolhas, e, pelo que me lembro de alguns diálogos em anos passados com meu pouco íntimo amigo Sartre, fazemos sempre a escolha errada. Não por azar ou por falta de experiência, mas porque sempre achamos que a alternativa deixada de lado é melhor. Nunca saberemos se estamos certos. Há algum tempo, me entreguei à loucura. Esta impõe nossos limites alertando-nos com surtos o momento certo de parar. Um tempo depois, em um dos meus surtos, quis ir além, e ser louco, para mim, agora é demais. Nestas últimas semanas, fiz duas importantes e sérias, porém necessárias, escolhas. Certas ou não, não saberei dizer. Alguns conhecidos com quem falei sobre isto me chamaram de louco, o que não deixa de ser um insulto, e que seria perda de tempo. A estes eu digo, meus caros, até nossa mente precisa de um tempo. Meu tempo, agora sagrado, sentado num banco do transporte coletivo não terá a honra de minhas leituras. Meus livros permanecerão guardados na bolsa, que carrega o nome de minha profissão, até um momento oportuno, de tédio ou de necessidade. Mas nos bancos públicos de um ônibus, nunca mais. Primeiro por toda esta questão de leitura, segundo, por repelir, agora, os curiosos que sentam ao meu lado e querem ler comigo. Leitura requer privacidade, um momento íntimo do leitor com o livro. Algo romântico, em que dialoguem e se entendam. Meu livro merecerá estas horas a dois. Por outro lado, estes preciosos momentos de leitura ausente também compreendem uma resistência de minha mente aos pensamentos chatos. Pensar em nada, mente vazia, pra esfriar. Olhar a paisagem, as árvores que correm em sentido contrário, as pessoas sem tempo correndo por aí. E o pensar em nada se estende, então, ao meu horário de almoço. Pretendo saborear o arroz sem gosto e o feijão quase queimado. Não me importa se meu paladar reclamar. Serão momentos de silêncio comigo mesmo. Estas são duas sérias e complicadas, porém necessárias, escolhas, mas parece que apesar de todas as minhas prevenções minha velha conhecida loucura (uma diferente, que só entende quem já a viu, diferente da que o Sr. Aurélio Buarque de Holanda nos apresentou) ainda me persegue pelas ruas da cidade. Num dia destes, em meio aos seguidos dias de chuva, apanhei meu casaco, cachecol, e numa escolha rara, um guarda chuva. Em meio à cidade úmida, onde as gotas de tristeza que banhavam a cidade estouravam na superfície lisa de meu protetor, senti certa angústia no ar. Com Cartola acalmando meus ouvidos, só ouvia o samba e as gotas tocando o chão. Em alguns segundos parados, vi o mundo chorar por mim. O céu caiu e silenciou o caos urbano. O mundo girou em câmera lenta. Vi o céu acinzentado derreter, como um epitáfio de minha morte ideológica, e o vento, repentino, cochichou em meus ouvidos. Ela estava ali. Minha velha amiga em breve voltará.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

(Quebra De Protocolo)

Quebra de protocolo, PS antes do texto.

PS: Queiram me desculpar, meus tão preciosos leitores, mas antes das publicações já prontas em minha cabeça, as quais disse texto passado, preciso contar do meu dia. Será um desabafo deste dia desgraçado que passei. Meu sangue ferve...

PS²: Fico grato, querida Tamy, pelo comentário no texto anterior.

No meu querido sono, leve, entre os sonhos bizarros que eu tinha, uma música insuportável fazia trilha sonora. A cada segundo, se aproximava, até que, ao abrir os olhos, desliguei o despertador. Agora tenho a dúvida de o toque de meu celular, que me chamava do sétimo sono, ser o despertador programado ou Murphy, me ligando, pra passar mais um dia ao meu lado. O celular me acordou trinta minutos atrasados do horário costumeiro e eu já estava fora dos horários para o serviço. Quando encostei meu pé direito no chão do quarto, sentindo o carpete frio, ouvi o último trem passar, manhã perdida, meu dia começava a escurecer. O sol nasceu e o céu ficou cinza. A água ameaçava cair, mas, pelas tantas vezes que minha amada cidade me enganou somadas à minha repelia por guarda-chuvas, saí sem nada em mãos. Até aí as coisas estavam normais, nada fora do cotidiano. Banho tomado, mp3 ligado, cartão do transporte na mão. Dentro do coletivo, olhares estranhos me seguiam, me senti ofendido, humilhado. Encarava ao fundo dos olhares cretinos daqueles pobres desconhecidos, perguntando o que havia em mim. De resposta recebia desprezo. Cheguei ao centro. Correndo pelas calçadas rumo ao restaurante, tinha horário pra chegar. Drogas de horários. Após escapar de três atropelamentos, chego ao restaurante no mesmo momento em que a porta fecha pela metade. Ainda consigo entrar. Almoço tranqüilo. Vou ao banco. A porta detectora de metais trava quatro vezes e a garrafa de café da agência está vazia. A fila gigantesca me atrasa novamente para o serviço. Novamente correndo, sou abordado para o assalto mais cômico, educado e fracassado que já vi. Abordagens como “eu sei que eu tô te atrapalhando, mas tem um brother meu naquela esquina e é melhor você passar tudo” requerem respostas como “só posso te dar cinqüenta centavos, você não vai nem ver a cor do meu celular ou mp3 e eu tô atrasado pro serviço, com licença...” e despedidas como “ah cara, valeu então, foi mal aí”. O mundo não é mais o mesmo. Ladrões inexperientes sobrevivem com 50 centavos? Bem, meus caros, desculpem a informalidade e a falta de detalhes, a não revisão das palavras e a explosão de raiva, mas tudo terminou com o céu caindo sobre minha cabeça no final da tarde, molhando meus tão queridos livros e me proibindo de assistir a uma aula em que minha ausência era impensável. Vou dormir.


"Todos tentam escapar, mas é inútil viver. Tudo vai se aniquilar e a humanidade perecer. Com um grito de terror, não saberão pra onde ir." - Apocalipse/Os Mutantes

domingo, 19 de julho de 2009

Seres Metamorfósicos, Me Explico Se Estou Virando...

Precisamos levar um papo sério meus caros. Deixo dito que meus próximos textos publicados neste blog resultam de novas experiências ideológicas, por esta e outras podem trazer algumas surpresas, sustos, descontentamentos e até decepções aos que me conhecem há tempos e aqueles que vêm lendo meus textos, ocultos aos meus olhos. Antes dos esclarecimentos, quero agradecer a duas pessoas (não direi o nome por questões pessoais) que trouxeram grandes incentivos aos meus escritos e alegrias à minha mente com elogios diretos aos meus textos, aos mesmos, peço perdão por qualquer coisa pra daqui em diante. Bom, sei que toda mudança vem pro bem. Ideais nunca morrem, nunca são esquecidos, eles apenas crescem, se fortalecem e ganham mais espaço. Tive novas leituras do mundo neste último mês e tenho certeza que não vieram para o meu regresso. Meus pilares ideológicos sobre religião, música e opção sexual permanecem intactos. Ainda sou modernista, e talvez por fazer jus a esta minha posição, modifiquei minha visão sobre a sociedade quanto à política, cultura e poder. Alterei meus níveis de esperteza, patriotismo, objetividade e patifaria. Alguns podem até me considerar um verme, velhaco, mas lembrem-se, toda mudança vem pro bem. Se for um verme, serei um verme melhor do que já fui.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Risos De Cabeceira.

Bom, meus caros. Tenho alguns textos guardados por aqui, tenho vontade de publicá-los, mas minha preguiça e meu tempo não têm contribuído. De qualquer maneira, estas últimas semanas moveram minha mente com um livro, algumas vezes citado neste humilde blog, extremamente interessante. O grande massacre dos gatos, que chegou às estradas confusas de minha mente pelo meu caro Robert Darnton e pela minha professora de antropologia (a vocês, agradeço), ampliou meus horizontes de crítica, aumentou minha capacidade de risos e me colocou numa situação de desespero. Devo devolvê-lo à biblioteca amanhã e preciso terminar a leitura. Por estas e outras, deixarei meus outros textos para publicações posteriores, e, no dever de indicar esta maravilhosa obra, deixo apenas um trecho que todos deveriam ler. Grato.

“Ele está tão cansado, e precisa tão desesperadamente descansar que a cabana parece-lhe um palácio. Finalmente, a perseguição e miséria que sofreu durante o dia inteiro terminaram, e pode relaxar. Mas não, alguns gatos endemoniados celebram um sabá das bruxas a noite inteira, fazendo tanto barulho que lhe roubam o breve período de repouso conferido aos aprendizes, antes que cheguem os assalariados para o trabalho, bem cedo, na manhã seguinte, e peçam admissão, tocando constantemente uma campainha infernal. Então, os rapazes têm de se levantar e atravessar o pátio, tremendo sob suas camisolas de dormir, para abrirem a porta. Esses assalariados jamais se mostram amáveis. Por mais que se faça, sempre acham que estão perdendo tempo e sempre tratam a pessoa como um inútil. Chama Léveillé. Acenda o fogo debaixo do caldeirão! Pegue a água para as tinas! [...] Assim, todos logo estão trabalhando – aprendizes, assalariados, todos – menos o patrão e a patroa: apenas eles gozam a doçura do sono. O que dá inveja a Jerome e Léveillé. Decidem que não serão os únicos a sofrer; querem ver na mesma situação seu patrão e a patroa. Mas, como produzir o efeito desejado?

Léveillé tem um talento extraordinário para imitar as vozes e os menores gestos de todos em torno dele. É um perfeito ator; esta é a verdadeira profissão que escolheu na oficina. Também pode produzir imitações perfeitas dos uivos de cães e gatos. Decide ir trepando de um telhado para outro, até chegar a uma calha próxima ao quarto do burguês e da burguesa. Dali, pode emboscá-los, com uma saraivada de miaus. Tarefa fácil para ele: é filho de um telhador e sabe engatinhar pelos telhados como um gato.

Nosso atirador de tocaia obtém tanto sucesso que toda vizinhança fica alarmada. Corre o boato de que há feitiçaria em ação e os gatos podem ser os agentes de alguém que está enfeitiçando. [...] Ninguém mais consegue dormir.

Léveillé encena um sabá, na noite seguinte, e na próxima. Se a pessoa não o conhecesse, ficaria convencida de que ele era um feiticeiro. Finalmente, o patrão e a patroa não podem mais suportar aquilo. “É melhor dizermos aos rapazes para se livrarem desses animais malévolos”, declaram. Madame lhes dá a ordem, recomendando-lhes que evitem assustar la grise. É o nome de sua gatinha de estimação.

Esta senhora é apaixonada pelos gatos. Muitos donos de gráficas o são. um deles tem vinte e cinco. Mandou pintar seus retratos e os alimenta com aves assadas.

A caçada é logo organizada. Os aprendizes resolvem fazer uma limpeza completa e os assalariados aderem ao grupo. Um dos homens se arma com a barra de uma impressora, outro com um bastão da sala de secagem, e ainda outros com cabos de vassoura. Penduram sacos nas janelas do sótão e dos depósitos, para pegar os gatos que tentarem escapar pulando para fora. Os batedores são designados, tudo é organizado. Léveillé e seu camarada, Jerome, presidem a festa, cada qual armado com uma barra de ferro da loja. A primeira coisa que saem procurando é la grise, a gatinha de Madame. Léveillé a atordoa com um rápido golpe nos rins e Jeroma a liquida. Depois, Léveillé enfia o corpo numa sarjeta, pois não querem ser apanhados: é um segredo. Os homens provocam terror nos telhados. Tomados de pânico, os gatos se atiram nos sacos. Alguns são mortos na hora. Outros condenados à forca, para o divertimento da gráfica.

Os tipógrafos sabem rir; é sua única ocupação.

A execução está prestes a começar. Designam um carrasco, uma tropa de guardas, até mesmo um confessor. Depois proclamam a sentença. [...]”

(DARNTON, Robert. “O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa”. p136-138.)



Meu livro de cabeceira, literalmente, até amanhã.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Qualquer Coisa De Um Dia Qualquer.

Mais um dia, mais uma segunda-feira, e ele acorda desanimado. Seus pensamentos distantes daquele quarto o seguravam por mais cinco longos minutos na cama, agarrado ao travesseiro, simplesmente desligado do mundo que o cerca, das pessoas que irão perguntar o motivo de sua tristeza, dos horários a cumprir. Horários estes perdidos entre os cinco minutos estendidos na cama. Já atrasado, decide que não vai se apressar. Levanta devagar, desviando das roupas jogadas pelo quarto, da sua mochila, seus textos, seus livros intermináveis, muda o seu violão (antigo companheiro) de lugar, joga para o lado as anotações, tolices dos dias de confinamento entre aquelas quatro paredes. Tem uma leve viagem pela saudade quando encontra o nome dela em um dos papéis. Se lamentando por desistir de entregá-lo à garota, amassa-o e joga ao lado dos copos sujos, velhos, marcados de café seco, abandonados ao lado do sanduíche meio comido. Depois de retirar suas lembranças dos dias chatos de auto-reflexão, encontra seu rádio. Roda o velho disco, quase furado dos seus amados Beatles. Abre as janelas, esfrega suas mãos com frio, arruma suas coisas para o banho. Ao voltar ao quarto, parado na porta decide que é hora de mudar. Aquela bagunça já o assustava, ele já não é mais o mesmo, seu comportamento mudou e tudo por culpa da saudade. Nervoso com tudo aquilo resolve ir à sua consulta, já com uma hora de atraso. Veste-se mais ou menos bem, na maneira como consegue. Ajeita o cabelo e, em frente ao espelho, novamente treina as palavras, já decoradas, de sua declaração de amor, para se por um acaso o acaso os leve a um café no final da tarde. Rapidamente volta a realidade, desliga seus companheiros musicais, pega seus fones de ouvido, estrategicamente colocados ao lado das chaves, do celular e do livro que precisa ler nesta semana. Deixa o livro. No caminho, simplesmente pensa. No último banco do veículo, mantém-se sério, olhar atento pelo corredor e pelas pessoas estranhas que o acompanham (em pé, ou sentadas, são estranhas), e a calmaria que os fones lhe causam só são interferidas pelo alvoroço que uma velha causa ao entrar na lotação. No consultório, sua paciência está no limite. Pega um copo d’água, e senta. Não lê, mas percorre os olhos pelas figuras do jornal que estava ao seu lado. Ri suavemente ao ver que o jornal era de um ano atrás e que os fatos da capa já tinham sido esquecidos. Aguarda mais meia-hora para ser chamado. Nas próximas duas filas, só tem tempo para pensar nela. Atende à terceira chamada do Médico, e enfim, seu compromisso está resolvido. Recusa de ir ao trabalho, não têm animo para isso. Dirige-se à Praça Tiradentes, um cenário que não via há tempos, tinha saudade também. Sentou-se num banco sob os raios solares para se esquentar. Suas mãos percorreram a textura da madeira velha e por um breve momento, sentiu-se bem e esqueceu seus problemas, mas no final de sua alegria, levou suas mãos à cabeça e lamentou. As coisas poderiam estar diferentes. Cansado de tanta monotonia em seus pensamentos vai almoçar. Não liga muito para o sabor da costela, gordurosa, em sua boca. O arroz com feijão está indiferente. O tempo passa rápido. Paga sua conta, adiciona um refrigerante e uma bala. Sem nada para fazer e com preguiça de voltar para casa resolve andar pela cidade. Sua caminhada já não entrava mais nos planos de vida. Esqueceu das cores da cidade, sua capital, das pessoas que nela vivem, seus amigos que passam despercebidos, do cotidiano. Seus passos lentos pela Rua XV, com seus fones de ouvido, parecia um filme. Ele não sabia qual, mas tinha direito a trilha sonora. Seu andar devagar trouxe a oportunidade de perceber detalhes, coisas que jamais perceberia num dia normal. Os gritos histéricos de uma mulher na esquina, o visual intrigante de um homem do outro lado da rua, acompanhado de uma bicicleta. Alguns turistas tiravam fotos. Um grupo de jovens, que provavelmente matava aulas, pulava sobre os bancos com uma garrafa de qualquer coisa em mãos. Lembrou-se dos seus anos de vida chula, e agradece por ter mudado, pelos anos dourados que presenciou. Parou para observar um barbudo qualquer tocando violão, mesmo sem escutar o que ele cantava, e gostou. Alguns homens meio estranhos lhe ofereceram uns adesivos engraçados, mas recusou. As pessoas normais, apressadas, batiam seus ombros pela rua. Ele, já cansado de ser empurrado naquele trânsito de atrasados, começou a achar graça na importância que as pessoas dão aos horários, e sorri por lembrar que não tem horários naquele dia. Depois de muitas horas de nostalgia, vai à universidade conferir suas notas, antes de retornar à sua casa. Sorri, e não diz nada, ao ver no edital que, dessa vez, enfrentaria poucos exames finais. Vai para casa. Tranca-se no quarto e só sai para comer. Seus pais resolvem falar alguma coisa que ele não presta atenção. De cabeça baixa, encostado no balcão da sala, sabe que eles estão preocupados com alguma coisa, mas simplesmente ouve e sai, desejando-lhes boa noite. Não está triste, não está feliz. Pensa no seu dia, isso o traz conforto. Percebe então que cada pessoa ao seu redor tem uma importância, são todos conhecidos. Ocupam cargos em sua vida. Sua amada, a velha, os estranhos, os normais e seus pais no final do dia. Acha que sua página na internet merece então algumas palavras sobre seu dia. Os outros precisam saber que ele reconhece a amizade oculta nas personalidades frias que andam pela cidade. Empenha-se em seu texto, escreve algumas linhas tortas e publica. Uma hora da madrugada. Deita-se, se encolhe na cama pra se esquentar. Lembra dela novamente e sorri. Seu coração, sufocado pela saudade, agora adormece confortável.



"Os meus olhos vibram ao te ver, são dois fãs um par. Dona dos meus olhos é você..." Lovely Nando Eller.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Porque Somos Brasileiros.

“Um poeta ou um filósofo pode levar a linguagem aos seus limites, mas a certa altura vai deparar-se com a estrutura externa da significação. Para além dela, jaz a loucura – o destino de Hölderin e de Nietzsche.” (DARNTON, Robert – O grande massacre dos gatos e outros episódios da história cultural francesa, XVIII) Belas palavras, meu caro, acolho-as com todo o carinho, mas devo acrescentar aos tipos de loucos da primeira frase os historiadores, os românticos, os vagabundos e eu.


Sinto-me no dever, como cidadão, meus caros, de chamar-lhes a atenção para algo que vem me deixando grilado há certo tempo. Furar a fila (consideravelmente grande em pleno horário de fome dos presentes) do restaurante da universidade e demorar o máximo possível no bufê (entre os pensamentos e controles entre cada grão de arroz que lota sua bandeja) não é um problema. Nossa natureza deve ser aceita, entendam, não queiram ser diferentes. Desde que nascemos somos ensinados pela malandragem. Nossa politicagem incorreta é que nos faz verdadeiramente espertos. Estacionamos em cima da calçada, atravessamos fora da faixa, bebemos antes de dirigir. Vivemos para desrespeitar leis, a sacanagem ferve em nosso sangue e está sempre pedindo mais, e mais, e mais! Ela nunca se satisfaz. Nosso prazer está em acabar com o dia de alguém, e assim devemos ser, o mundo é dos espertos. O mundo é dos espertos, o mundo é nosso, dominamos, meus caros, o mundo agora é brasileiro. E o que seria do mundo sem o Brasil? O que seria, me respondam, do Brasil sem a esperteza cotidiana de cada um de nós?

domingo, 21 de junho de 2009

Os Dias (malditos) Da Eficiência De Uma Lei.

Deixo claro que declaro, a partir destes dias, guerra ao meu parceiro que destruiu minhas alegrias nesta semana toda que percorreu agarrado ao meu pé, só ele e eu. Meu caro Murphy, e assim te chamarei, maldito inventor da lei, que por acaso funciona e em sete longos dias, nas manhãs tão otimistas, destruídas por você, acabou com os meus planos. E eu sempre acordando pensando que tudo ia mudar, logo vejo que me engano e no final tua maldita descoberta, desta lei que hoje me arremessa aos trapos, ao canto do meu quarto, me levou novamente aos copos de álcool. Mergulhado, indo ao fundo, anestésico vagabundo que me trouxe em casa e eu nem sei como. Cheguei, amortecido, como sempre esquecido, caí na cama e refleti sobre o que me trouxe ali. Tentei encontrar no fundo de cada dose, virada em fração de segundo, catalisada pelo meu pobre fracasso, a resposta dos acontecimentos negativos que se sucediam cada vez piores. Maldito Murphy, alimentou meu vício, e cada gota gelada, calmante que nada, era um insulto a você. E os litros, que bebi sozinho na mesa de um bar, acompanhados dos xingamentos dedicados a ti, só me fizeram pensar mais no ódio entre nós. Nossa guerra, senhor Murphy, será eterna, meu caro maldito inimigo, você não sabe o que te espera.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Nostalgia, Talvez.

“Saudades, indiferença, decadência e mau-humor”. De minha nostalgia, desde ontem e alguns dias, reaprendendo significados, reorganizando meu quarto e redescobrindo quem eu sou, foi isto que senti. “Até parece loucura, não sei explicar. É a verdade mais pura” que coisas insignificantes, pra alguns, podem nos trazer alegria em algumas horas. Com “o pensamento distante para evitar a dor, o olhar tão desbotado que já não distingue cor” estava eu, revirando meus CD’s, mergulhado na maldita saudade, até que então o encontrei. Meu primeiro disco (já sob os pós do tempo no fundo de minha estante), presente de não sei quem, virado em cacos, encarte aos rasgos e a mídia, quase furada, me lembrou de quantas, e tantas, vezes dormi, acordei, estudei e, até mesmo em silêncio, apreciei aquela maravilha, preciosidade única em meu quarto por muito tempo. Meus Titãs daquela época, “um amigo que virou amante”, e mais tarde, na minha vida, “uma onda que morreu na praia”. Esquecido, sinto muito, o Volume Dois me aguardou. A esperança de ser ouvido novamente. De minha nostalgia, sentindo falta de minha querida, trago estigmas, as dores na consciência de ter esquecido por tanto tempo este valoroso amigo, as lições de vida que ele me trouxe. Foi ele quem me trouxe até aqui. Ensinou-me o que é música, romântica, o amor, a política, as conquistas e as idéias “que se gastam com o passar do tempo”, mas estas paixões que este grande parceiro me proporcionou não se gastam. E minha nostalgia, que parecia eterna, encontrou o início de seu fim no meu horário de almoço. “entre outras pessoas é tão natural” disfarçar a saudade a todo o tempo, eu não consigo, e acompanhado desta, sentado na mesa do restaurante, concentrado nos grãos de arroz, uma surpresa agradável aconteceu. Seu perfume toma conta e meus ares nostálgicos se evadem, não por completo, nem pela metade, mas, junto ao fim de minha fome e a boa conversa entre nós, acalma meu corpo, sorri o meu rosto. “Toda cor me lembra os teus olhos” e ali estive em paz por algum tempo, apreciando o outro lado da mesa. Não consigo descobrir o que se passa naqueles pensamentos vagos, concretizados num sorriso suave, num semblante cansado, talvez de preocupação ou decepção por algo. “sabe que sorrir é bom. E quem não detesta sofrer à espera de quem sempre amou? Há sempre a pequena chance de o impossível rolar”, e mesmo o possível me traz dúvidas. Não vejo sinais, respostas. É simplesmente ela, e por mais que eu pergunte, minha clareza parece estar nas entrelinhas. Pensando bem, isso é o que sobrou de minha nostalgia. A saudade não acabou por completo, e talvez não acabe. Ela deve já saber o que eu penso e o que desejo. “e deixa ser o que for”. Sem mais nada a dizer “escrevo as últimas palavras, estendo a mão sem dar um beijo. Espelho meu desiste dessa cara, entrego a ela todos os segredos”.




Ouçam o CD se quiserem. Ele realmente me ensinou muita coisa, e aposto que pode ensinar a muitos também. Vale muito a pena ouvir. É um dos meus prediletos do Titãs, mesmo não tendo o Arnaldo Antunes. De qualquer maneira, ainda tem o Nando Reis, o Paulo Miklos e o Sérgio Britto. Letras ótimas e marcantes. Produzido pelo Liminha.


domingo, 7 de junho de 2009

Muito Em Terceira Pessoa.

Todas as sete noites passadas, em seu humilde quarto, número 23, no Hotel Avenida,  sentado na cama, antes de dormir, na sua silenciosa solidão, enquanto olhava vagamente para a pequenina televisão a cores, ligada em vão, nas notícias, já cansáveis, do acidente de que todos falam, pensava nela, distante. Na trilha sonora que o acompanhava, suas melhores músicas em seus fones de ouvido, descobria que as palavras significavam muito mais do que os seus próprios significados. Cada nota, cada verso, cada estrofe lhe apertava mais o peito. A saudade, sufocando sua paixão, lhe dizia pra voltar. O nome dela latejava em sua cabeça a cada dez segundos. O olhar pela janela aberta, mesmo na noite fria, mirava as estrelas, tão perto em sua sensação, que parecia poder tocá-las. Escreve em suas cartas as promessas românticas de roubar-lhe estrelas, mesmo sabendo que é impossível cumprir. Depois da assinatura, escrita já com o sofrimento e o empenho de manter seus olhos abertos. Deita devagar, como se tivesse cumprido seu dever. As cartas lhe cobrem a falta das conversas longas. Encolhido sob as cobertas, desliga a TV, e, ainda olhando através da janela, dorme aos poucos, pensando que mais um dia se passou.




E voltamos inspirados...

Lixos, Lixos, Lixos.

E os pontos de vista divergem, minha gente. Por que a galinha atravessou a rua?

 

O filho: Não sei. Por quê?

O pai: Porque ela quis.

O avô: Veja bem, no meu tempo...

A pedagoga: Gente, essa galinha tem problemas, chamaremos os pais dela imediatamente!

O professor: Vou procurar. Na próxima aula te respondo.

O psicólogo: Ela estava enfrentando uma crise, precisava de novas experiências.

O maconheiro: Foi curtir uma pira.

O historiador: Foi colonizar novas terras. Mas tudo depende do contexto em que ela está inserida.

O antropólogo: Foi estabelecer sua cultura em novas terras. Pode ser tudo uma questão etnocêntrica.

O filósofo: O que você entende por galinha?

O comunista: Foi fazer a revolução!

Os norte-americanos: Se não for pro nosso lado da rua, não interessa.

O biólogo: Impossível! Não tem galinha do outro lado da rua.

O matemático: Levando em consideração o ângulo formado entre a reta da rua e a direção em que a galinha seguiu, elevado ao quadrado, vezes dois, divididos por cinco mais raiz de x, chegaremos em báskara. Aí é só resolver.

O geógrafo: Não importa! É tudo o mesmo planalto.

Um jornalista qualquer: Eu é que pergunto!

Um jornalista sensacionalista: Isso é um absurdo! Onde estão nossas autoridades! Deste jeito amanhã uma outra galinha resolve fazer a mesma coisa e os pais de família têm que trabalhar o dia inteiro pra depois chegar em casa e a galinha está lá do outro lado...

A Dercy Gonçalves: Vão tomar no cu! Deixa a galinha em paz, porra! Deve ter ido dar pra algum galo!

O bêbado: (ich)A galinha é (ich) minha amiga! (ich) Essa (ich) é amiga do pei(ich)to!

Um cara da cidade: E galinha anda?! Hahahahahahahahahahaha!

Um cara do campo: Ah má sei lá! Essas galinha são tudo mei doida, tem que cuidá até pra não pisá em cima do rabo de uma. Esses dia mesmo um foi ali prarriba, má veio um cavalo cum tudo daqui quase que pegô em cheio nas asa da direita, né!

Um Petista: Ela só conseguiu isto graças ao Bolsa Galinha! Um projeto incrível do nosso governo...

Um Tucano: Porque o atual governo financia o MST! Essa galinha está invadindo terras produtivas! Abriremos uma CPI!

Eu: Quis tirar uma foto como os Beatles na Abbey Road.

domingo, 31 de maio de 2009

Já Sinto Saudade.

Vou viajar, andar por aí. Não perguntem por mim, pra onde eu vou. Simplesmente estou buscando estrelas pra uma garota. Da chuva, cada gota vou juntar e guardar no fundo dos seus olhos. Neste mundo, será nosso tudo o que ela desejar. E o que eu não encontrar, não lamento, nem desisto, crio, faço existir. Dou um jeito, quero apenas ver feliz, seu sorriso estampado, num rosto todo avermelhado, da reação que irá causar, os meus atos de conquista, que por fim, um beijo de filme, dela em mim, inicia a nova vida. Meu coração, em cada batida, leva seu nome ao meu pensar, e nestes sete dias de viagem, quero te ver quando voltar. Quando nem eu mesmo ver meus passos, a saudade cobrirá o Sol. E quando eu ver-te novamente, voltando aos meus trapos, a alegria será meu bem maior. Um café, e uma surpresa, pra te lembrar, que eu não esqueci sua beleza, mesmo vendo tantas outras. Posso não ser todo o seu ar, mas quero tê-lo. Deixar-te só em suspiros, pois seu cheiro é o que eu respiro. Venho aqui, em palavras breves, só dizer que, mesmo longe, levarei sua lembrança. Voltarei com esperança de que sua agonia de saber o que eu pretendo te dizer em meu retorno, seja satisfeita. E se não for, burro fui eu, incompetente, mas se de Romeu não tenho nada, pelo menos deixe com que eu faça de seu sorriso algo concreto. Caso contrário, meu coração será vazio, secreto, incerto, deserto e deserto e deserto...


E nas palavras de Cartola: "Eu e meu violão vamos rogando em vão o teu regresso. Se soubesses como choro e como peço pra que o nosso fracasso se transforme em progresso. Apesar de todo erro espero ainda que a festa do adeus seja a festa da vinda."

terça-feira, 26 de maio de 2009

Idéias Perdidas.

A vida riu de mim e levou socos e pontapés, nunca mais disse nada. Todos me diziam: “nossa geração é mente aberta”; e eu, modernista que sou, abri a minha também. Erro maldito. Desde então minhas idéias caem por aí, muitas vezes levam alguns parafusos, agora faltantes. Pensando bem, não fazem falta. Descobri com tudo isso que a loucura é parte integrante de um sistema extremamente incompreensível. Sem explicações, sou direto. Estou perdendo idéias! Quando olho para trás, um passado morto e enterrado, vejo uma trilha de criatividade que (oh céus) fui eu quem deixou. Pior de tudo é quando tropeço na idéia de outra pessoa. Coisinha mais nojenta. Pessoas irresponsáveis da minha geração, isso é que somos. Poluindo o mundo inteiro com criativas sem nexo. Devíamos mesmo era andar com uma vassourinha e banir nossas idéias descartadas para evitar que atrapalhem a vida de outros. Essa coisa de mente aberta, quero é proteger a minha. Privacidade. E... Com toda essa bagunça, não sei mais onde deixei a idéia que queria aqui colocar. Ah! Que se dane. Depois deste maldito texto (sete malditos dias parado aqui neste monitor aceso, olhando para mim, e o risquinho irritante do word piscando, ao som de Chuck Berry) ter me trazido idéias novas, entulhei meu quarto. Droga, parece como antes, só que mais cheio. Tem idéia caindo até pela janela, e não sei como organizar. Quando descobrir, doarei algumas delas, jogarei outras no lixo, consumirei algumas outras então. Um suspiro de alívio, prateleiras cheias, CD’s gastados, ar cheiroso e uma nova forma de escrever. Já volto... 

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Hoje, Amanhã E Depois.

A dor de meu peito agora se espalhou por todo o corpo. Da cabeça aos pés meu sentimento latejante, firme, pulsante me lembra de esquecer todo o problema, besteira boba de minha mente. Tentei amortecer com um anestésico alcoólico e piorei. Na quarta-feira fui convidado pra um evento que eu quis ir. Mesmo tão mal achei que aquilo seria bom, e as gotas loiras, frias, abriam caminho pelo meu corpo, trazendo a sensação, sem me dar conta, de quase morte. Agora sinto na pele, e sob ela, as conseqüências do medicamento que errei. Hoje, uma sexta-feira plena, fico aqui, alimentando minha beatlemania, com cinco dermes extras de lã. O sol chegou, mas não esquenta, incompetente. Não quero nem ver quando ele se for, diferença talvez não fará, mas ele aqui enche meus olhos de esperança, pra que meu dia vá melhorar. Amanhã, mesma agonia, e depois a mesma coisa. Três dias vão passar, e eu esperando melhorar vou olhar através dos vidros de meu quarto, imaginando o que há lá fora, onde eu poderia estar. Diminuindo o ritmo, a partir desta vírgula, vou indo longe de minhas teclas. Melhor parar. Hoje, amanhã e depois meu corpo vai reclamar, me levando pros meus sonhos pra minha cama consumar. 

domingo, 10 de maio de 2009

Ganhei Meu Presente E Não Pude Tê-lo.

O som chega aos meus ouvidos, sem dor nem dó, em Fá, em Dó, em Sol e Lua que ilumina meu olhar, belo brilho do luar. Eu sentado a pensar no que fazer depois daqui, longe de tudo, longe de mim. Meu dia não é bom, sinto cheiro de ressaca e a mistura de aromas, resultado da noitada. Dia longo, noite em claro, sem luz pra me encontrar, sigo em verso proseado. Gostaria de explicar, mas não há tempo pra conversa, devo parar, mas não agora. A dor em minha cabeça, latejando em palavras frias, do show que eu iria, show dos sonhos de minha vida. Deitado pra acalmar, viajo em longas auto-estradas que minha mente construiu, o sol quente queimando o asfalto frio. Olhos cansados, avermelhados, vêem o passado de forma clara, eu fiz besteira e vim pra casa pra lamentar o tempo perdido. Poderia ter perdido de outro jeito, mas não sei ser perdedor e agora calo, e aceito, neste meu peito a grande dor. Ver todos estes sorrisos de quem realiza um sonho e eu pra baixo sintetizo minha alegria pra mais depois, ao te encontrar, e perguntar das nossas fotos, meu amor.  E como fica a nossa história, que aos poucos construímos? Te conheci, foi meu oásis, minha glória, e ao te ver, não posso ir. E amanhã é um grande dia, completo mais um ano em minha vida, mas nada disso me faz esquecer que poderia ter você. Massacrando minha mente ligo o rádio e a TV, assim te ouço, te vejo, mas não ligue, tudo bem. Teremos outra oportunidade, assim espero, enquanto isso continuo pensando em ti com meus CD’s, viajando em suas notas, desejando completar mais este ano ao teu lado lembrando com os discos guardados nossa história, mas não dá.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Fodam-se Os Espelhos.

Confesso que me preocupo com minha própria imagem, mas odeio olhar pra ela. Não suporto olhar a minha cara, ver essa maldita, dissimulada. Espelhos, eu os odeio. Não é por questão de beleza, nem porque deixei de fazer a barba, e não que isto não seja verdade, mas o que me dá medo é o que vejo no meu próprio olhar. Sabe, às vezes, quase sempre, quando estou sozinho principalmente e me coloco a pensar sobre mim mesmo, tenho medo do que posso virar, ou o que é pior, de não conseguir virar o que eu quero. Tenho medo de que minhas atitudes influenciem em coisas que me contrariem. É como se fosse um trauma que me persegue. Nos encontramos quando me olho no espelho, eu e o trauma. Meu rosto, cara de ressaca, me diz que estou errado. Não sei em relação a quê, mas entramos em uma briga. Eu nunca a venci. Outro dos meus grandes e piores defeitos é o egocentrismo. Sou tão egocêntrico, e agora apresento mais um problema meu com os espelhos, que quando olho minha própria imagem tenho inveja dela. Não suporto, é como se eu desafiasse a mim mesmo. É como se eu quisesse tanto ser bom que precisasse acabar comigo mesmo para isso. Mas bem, isso não é o mais relevante ultimamente. Podem dizer que estou em uma fase depressiva, quem me conhece realmente sabe que isso não é verdade. Estou num dilema, num conflito existencial, já comentei disso dias atrás. Isso não é sinônimo de depressão. Não desejo me matar nem me isolar da sociedade, afinal, já passei por coisas piores. Estou a procura de um eu fixo, já falei disso também, mas agora aprofundo no assunto. Descobri algo que revolucionou minha vida, ontem. Acordar a cada dia pensando diferente é sensacional, e eu não preciso mudar minha personalidade pra isso. Ser assim abre um atalho para meu destino. A questão é que tenho encontrado a felicidade interior, apesar de me assustar com ela. Deixo rolar, o tempo passar, e de repente, algo novo surge. Uma mutação mental. Dizem que toda mudança vem pro bem, assim, devo estar me tornando uma pessoa boa, e ter este título deve me ajudar, o problema é que muitas destas mutações me assustam, pois nunca imaginei que seria assim. Só o que posso fazer é aceitar de bico calado. O engraçado é que temos uma fase na vida em que nos esforçamos ao máximo para sermos alguém diferente de nossa natureza, mas com o tempo baixamos a bola e simplesmente aceitamos ser o que realmente somos. Só tenho medo do que posso virar no final. Esse é meu problema com espelhos. Eu aceitei ser quem eu sou, mas meu eu não quer deixar, está puto da cara comigo. Meu ego está vazio, os espelhos que se danem. Vou dormir, estou com frio.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Esqueci O Respeito.

Estou cansado de ser pobre menino humilhado, linchado pela sociedade. Sei que é mentira, falsa hipocrisia, pseudo-revolucionário. Quero é ver o pôr-do-sol de camarote, cobertura de Leblon. Paris, Roma e Berlim. Quero conhecer o mundo, moderno, falso. Quero tocar pelos barzinhos da cidade, pra todo mundo ouvir minha opinião. E todos vão gostar, farão minha fama, minha realidade, vou ter dinheiro de montão. Eu quero carros, mulheres, apartamentos de frente pro nada. Quero casa, mansões, mansinhas mulheres mulatas. Ferozes cachorros de guarda, pra guardar o ouro e a cerveja barata. Vou economizar cada centavo pros outros dizerem que eu valorizo meu capital. E os outros, quero é que se danem, pra mim tudo é igual. Quero o mundo num mundo só. Num mundo infernal. Não ligo pras garotas, garotos, pra ninguém. Não vou pagar a conta telefônica, assim poderei dormir bem. Descansado, de lado, de bruto, de braço. De pé, na cama, deitado. De tudo o que é sentido, posição, escancarado. Olhar para o céu, ter um teto de vidro. Ver estrelas tapando os ouvidos. Quero gritar que nem um louco. Um grito de desespero, de felicidade, de raiva de quem tem pouco. Quero reclamar sem ter motivo. Ser rebelde inofensivo. Quero ser tudo o que eu nunca quis ser. Sabotar, azucrinar, arrebentar. Dançar pelado no altar de uma igreja. Correr pelado pelas ruas gritando “liberdade, liberdade”. Vou ser dono do mundo, provocar o apocalipse. Acabar com a pobreza, a riqueza, a fome, a fartura. A falta de tanta coisa e o excesso de todo o resto. Vou me divertir, olhando lá do alto, pessoas correndo, dizendo: “o que houve o que há quem é você? quem vai nos salvar?” Vou gargalhar apontado meu dedo sacana pra cara de um cara bacana. Risos diabólicos, satânicos, satíricos, irônicos, de um cara que acha graça da desgraça de vocês. Vou provocar o fim do mundo, o fim de tudo. Fim do alemão, do italiano, do português. Do espanhol e principalmente do inglês. Vou criar uma língua muda. Apagar o Sol, cobrir a Lua. Parar a Terra, beber todo o oceano. Vou derramar pinga nos sete mares e as areias se tornarão batatas fritas. Estou cagando e andando pra vocês. Digam o que quiserem, mas queiram o que disserem. Falsa hipocrisia, revolta, guerra fria. Vou acabar com tudo isso, e com todo o resto. Pra mim, vai ser como um sexo. Verbal, mundial. Vou foder com tudo. Com você, sua mãe, sua tia. Vou foder o mundo. Sem censura, sem nojo, sem sarcasmo. Tudo termina num belo orgasmo. O mundo agora é meu. O mundo já se fodeu. E agora me pergunto que porra é essa. Se essa porra foi coisa minha. O mundo acha que agora é festa. Já chega, já cansei. Estou exausto, cansado de ser pobre menino humilhado, linchado pela sociedade. Maldita sociedade, moderna. Mundinho de merda, esporrado, fodido. Merda de mundo perdido.


Nesse texto, fui inspirado pelo "Monólogo" de Chico Anysio.
Confiram o vídeo do "Monólogo" clique aqui.

Vale muito a pena conferir!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Dilema. Fidelidade Eterna.

“vejo agora que estou condenado a uma morte lenta e asfixiante. E estou tentando entender o porquê. É claro que tenho inveja. Por que a minha vida não é assim? É claro que quero o dinheiro deles, suas roupas, empregos, opiniões... E gostaria que me dessem dicas sobre a vida social. Mas não é isso. Quer dizer, eles não são más pessoas, não sou um classista. É outra coisa. E aí me caiu a ficha.” Reconstrução constante. Cada dia que passa, passa um de mim. Sentado num banco, em frente a uma varanda qualquer da vida, vejo vários eus passarem por mim. Reconstrução constante. Nós nascemos com personalidade traçada, sempre fui contra isso e agora defendo. Oh céus, o que virei? Um monstro devorador de pensamentos próprios. Reconstrução constante, ou melhor, um eu inconstante. Por toda a minha vida quis ser uma pessoa, e em uma semana eu sou várias pessoas totalmente diferentes do meu modelo. Minha mente é um dilema. Maldito dilema. Eu morro e nasço. Acredito agora em reencarnação, mas no meu próprio corpo. Olho no espelho e não me reconheço mais. A preguiça vence a vaidade, meu rosto adquire pelagem, meus olhos se fecham, amigos me esperam... Amigos, sei lá, eles também mudam. Preciso conhecer gente nova, pra me tornar um eu fixo. Então meus amigos não precisarão conhecer um eu diferente a cada dia. Reconstrução constante. Pensamento inconstante. Minha mente é um dilema e não decifrá-lo é meu lema. Enfim, sem mais delongas, longas tolices, declaro que de agora em diante me tornarei um ser de temperamento fixo. Estou farto de invejar atitudes de pessoas que conseguiram uma personalidade. Não sei o que dizer, não sei mais o que ser, não tenho mais o que fazer. Minha mente é um dilema, e não decifrá-lo é meu lema.