quarta-feira, 29 de julho de 2009

Um Último Suspiro De Healter Sheker.

Acordou, como sempre, duas horas antes de sair. Tomou seu banho, abriu as cortinas. Fez o café ainda vestindo seu roupão. Fritou um ovo, passou a manteiga sem gosto no pão francês, consumiu em pé, em frente à janela. O olhar que atravessava os vidros do sétimo andar de seu prédio estava distante do que pensava, mirando, involuntariamente, o nascer do Sol. Terminou o café. Vestiu sua calça, prendeu a fivela da cinta. Apagou as luzes ao mesmo tempo em que apanhava seu casaco e seu chapéu. Após fechar a porta, voltou buscar o livro e o cachecol. Passou na cozinha para mais um café. O elevador quebrado o obrigou a usar as escadas. Healter Sheker não estava nervoso, desceu pelos degraus sem hesitar. Tornou-se um homem frio e egoísta desde a morte de sua esposa, há dois anos. Desde o que houve, Sheker sai de seu apartamento apenas para necessidades básicas. Não tem dirigido palavras para as pessoas de seu convívio, no trabalho. Não reconheceu alguns velhos amigos, há muito desaparecidos, que encontrara numa ruazinha perto de seu prédio, num dos poucos dias ensolarados do último mês na pacata cidade em que reside. Semanas atrás, em um de seus surtos, encaixotou sua TV, computador e todos os retratos da Sra. Sheker. Abandonados num dos becos da Avenida Central, endereço de Healter, devem ter sido levados por algum anônimo qualquer. Ele vive agora cercado por seus livros. Tem mergulhado nos romances, chegou ao cúmulo de ler Shakespeare. Não descartou seus CD’s, mas tem ouvido apenas um velho álbum, já empoeirado nas prateleiras, de Elizabeth Orton. Justifica, após cantar, junto ao toca-discos, que a voz o faz sentir sua alma. O encarte encontra-se já rasgado e gasto, de tanto ficar entre as mãos suadas de Sheker, deitado no chão do apartamento, minutos antes de pegar no sono. Healter está desligado, vive em outro mundo. Não sabe das últimas notícias, não recolheu mais seu jornal. Não dialoga nem ao menos com o porteiro de seu prédio, mais uma vez passa pela recepção de cabeça baixa, passos lentos e olhos cansados. Entra no ônibus, vê alguns cartazes colados nos vidros sobre alguma epidemia. Lê superficialmente que o governo tomou medidas imediatas que chegaram ao ponto de separar os contaminados em vagões diferentes do metrô. Percebe levemente que as pessoas lhe dirigem um olhar diferente, mas não liga. A velha ao seu lado tosse. Shelker nem se move. E isto ocorre dia após dia. Shelker só quer saber de suas leituras, tem sido seu único prazer. Chega ao trabalho. Mais uma vez não responde ao bom dia da secretária. Seu chefe lhe traz mais pastas, a secretária mais recados, e Shelker continua olhando as páginas dos livros. Lê extensamente. Seu chefe se cansa e o demite. Shelker não muda seu semblante. Apanha apenas seu livro e volta para o apartamento solitário. Sabe que já contraiu a epidemia. Shelker sempre soube de tudo, para ele tanto faz. Chega ao seu apartamento, lê a última página de seu último livro. Liga mais uma vez a doce voz de Beth Orton. Deita-se no chão do apartamento, de barriga para cima. Devagar, abre os olhos. Uma última foto de sua esposa, que guardara no bolso do casaco. Shelker permanece ali enquanto as músicas repetem várias, e várias vezes. O sol nasce e se põe, dia após dia, e Shelker permanece deitado, consumido pela epidemia que massacra metade da cidade. Após 3 dias as músicas repetem, o CD já quente. O céu escurece e cai. Amanhece azul. A lua vem, o Sol se vai, mas Shelker já foi embora. Resta no chão do apartamento o rádio, o encarte, a foto e um último suspiro de alívio de Healter Sheker, residente na Avenida Central, prédio amarelo, apartamento 707, na remota cidade de Bellablume, até sete dias atrás.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Toda Loucura Vai Embora Prometendo Voltar.

A vida é feita de escolhas, e, pelo que me lembro de alguns diálogos em anos passados com meu pouco íntimo amigo Sartre, fazemos sempre a escolha errada. Não por azar ou por falta de experiência, mas porque sempre achamos que a alternativa deixada de lado é melhor. Nunca saberemos se estamos certos. Há algum tempo, me entreguei à loucura. Esta impõe nossos limites alertando-nos com surtos o momento certo de parar. Um tempo depois, em um dos meus surtos, quis ir além, e ser louco, para mim, agora é demais. Nestas últimas semanas, fiz duas importantes e sérias, porém necessárias, escolhas. Certas ou não, não saberei dizer. Alguns conhecidos com quem falei sobre isto me chamaram de louco, o que não deixa de ser um insulto, e que seria perda de tempo. A estes eu digo, meus caros, até nossa mente precisa de um tempo. Meu tempo, agora sagrado, sentado num banco do transporte coletivo não terá a honra de minhas leituras. Meus livros permanecerão guardados na bolsa, que carrega o nome de minha profissão, até um momento oportuno, de tédio ou de necessidade. Mas nos bancos públicos de um ônibus, nunca mais. Primeiro por toda esta questão de leitura, segundo, por repelir, agora, os curiosos que sentam ao meu lado e querem ler comigo. Leitura requer privacidade, um momento íntimo do leitor com o livro. Algo romântico, em que dialoguem e se entendam. Meu livro merecerá estas horas a dois. Por outro lado, estes preciosos momentos de leitura ausente também compreendem uma resistência de minha mente aos pensamentos chatos. Pensar em nada, mente vazia, pra esfriar. Olhar a paisagem, as árvores que correm em sentido contrário, as pessoas sem tempo correndo por aí. E o pensar em nada se estende, então, ao meu horário de almoço. Pretendo saborear o arroz sem gosto e o feijão quase queimado. Não me importa se meu paladar reclamar. Serão momentos de silêncio comigo mesmo. Estas são duas sérias e complicadas, porém necessárias, escolhas, mas parece que apesar de todas as minhas prevenções minha velha conhecida loucura (uma diferente, que só entende quem já a viu, diferente da que o Sr. Aurélio Buarque de Holanda nos apresentou) ainda me persegue pelas ruas da cidade. Num dia destes, em meio aos seguidos dias de chuva, apanhei meu casaco, cachecol, e numa escolha rara, um guarda chuva. Em meio à cidade úmida, onde as gotas de tristeza que banhavam a cidade estouravam na superfície lisa de meu protetor, senti certa angústia no ar. Com Cartola acalmando meus ouvidos, só ouvia o samba e as gotas tocando o chão. Em alguns segundos parados, vi o mundo chorar por mim. O céu caiu e silenciou o caos urbano. O mundo girou em câmera lenta. Vi o céu acinzentado derreter, como um epitáfio de minha morte ideológica, e o vento, repentino, cochichou em meus ouvidos. Ela estava ali. Minha velha amiga em breve voltará.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

(Quebra De Protocolo)

Quebra de protocolo, PS antes do texto.

PS: Queiram me desculpar, meus tão preciosos leitores, mas antes das publicações já prontas em minha cabeça, as quais disse texto passado, preciso contar do meu dia. Será um desabafo deste dia desgraçado que passei. Meu sangue ferve...

PS²: Fico grato, querida Tamy, pelo comentário no texto anterior.

No meu querido sono, leve, entre os sonhos bizarros que eu tinha, uma música insuportável fazia trilha sonora. A cada segundo, se aproximava, até que, ao abrir os olhos, desliguei o despertador. Agora tenho a dúvida de o toque de meu celular, que me chamava do sétimo sono, ser o despertador programado ou Murphy, me ligando, pra passar mais um dia ao meu lado. O celular me acordou trinta minutos atrasados do horário costumeiro e eu já estava fora dos horários para o serviço. Quando encostei meu pé direito no chão do quarto, sentindo o carpete frio, ouvi o último trem passar, manhã perdida, meu dia começava a escurecer. O sol nasceu e o céu ficou cinza. A água ameaçava cair, mas, pelas tantas vezes que minha amada cidade me enganou somadas à minha repelia por guarda-chuvas, saí sem nada em mãos. Até aí as coisas estavam normais, nada fora do cotidiano. Banho tomado, mp3 ligado, cartão do transporte na mão. Dentro do coletivo, olhares estranhos me seguiam, me senti ofendido, humilhado. Encarava ao fundo dos olhares cretinos daqueles pobres desconhecidos, perguntando o que havia em mim. De resposta recebia desprezo. Cheguei ao centro. Correndo pelas calçadas rumo ao restaurante, tinha horário pra chegar. Drogas de horários. Após escapar de três atropelamentos, chego ao restaurante no mesmo momento em que a porta fecha pela metade. Ainda consigo entrar. Almoço tranqüilo. Vou ao banco. A porta detectora de metais trava quatro vezes e a garrafa de café da agência está vazia. A fila gigantesca me atrasa novamente para o serviço. Novamente correndo, sou abordado para o assalto mais cômico, educado e fracassado que já vi. Abordagens como “eu sei que eu tô te atrapalhando, mas tem um brother meu naquela esquina e é melhor você passar tudo” requerem respostas como “só posso te dar cinqüenta centavos, você não vai nem ver a cor do meu celular ou mp3 e eu tô atrasado pro serviço, com licença...” e despedidas como “ah cara, valeu então, foi mal aí”. O mundo não é mais o mesmo. Ladrões inexperientes sobrevivem com 50 centavos? Bem, meus caros, desculpem a informalidade e a falta de detalhes, a não revisão das palavras e a explosão de raiva, mas tudo terminou com o céu caindo sobre minha cabeça no final da tarde, molhando meus tão queridos livros e me proibindo de assistir a uma aula em que minha ausência era impensável. Vou dormir.


"Todos tentam escapar, mas é inútil viver. Tudo vai se aniquilar e a humanidade perecer. Com um grito de terror, não saberão pra onde ir." - Apocalipse/Os Mutantes

domingo, 19 de julho de 2009

Seres Metamorfósicos, Me Explico Se Estou Virando...

Precisamos levar um papo sério meus caros. Deixo dito que meus próximos textos publicados neste blog resultam de novas experiências ideológicas, por esta e outras podem trazer algumas surpresas, sustos, descontentamentos e até decepções aos que me conhecem há tempos e aqueles que vêm lendo meus textos, ocultos aos meus olhos. Antes dos esclarecimentos, quero agradecer a duas pessoas (não direi o nome por questões pessoais) que trouxeram grandes incentivos aos meus escritos e alegrias à minha mente com elogios diretos aos meus textos, aos mesmos, peço perdão por qualquer coisa pra daqui em diante. Bom, sei que toda mudança vem pro bem. Ideais nunca morrem, nunca são esquecidos, eles apenas crescem, se fortalecem e ganham mais espaço. Tive novas leituras do mundo neste último mês e tenho certeza que não vieram para o meu regresso. Meus pilares ideológicos sobre religião, música e opção sexual permanecem intactos. Ainda sou modernista, e talvez por fazer jus a esta minha posição, modifiquei minha visão sobre a sociedade quanto à política, cultura e poder. Alterei meus níveis de esperteza, patriotismo, objetividade e patifaria. Alguns podem até me considerar um verme, velhaco, mas lembrem-se, toda mudança vem pro bem. Se for um verme, serei um verme melhor do que já fui.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Risos De Cabeceira.

Bom, meus caros. Tenho alguns textos guardados por aqui, tenho vontade de publicá-los, mas minha preguiça e meu tempo não têm contribuído. De qualquer maneira, estas últimas semanas moveram minha mente com um livro, algumas vezes citado neste humilde blog, extremamente interessante. O grande massacre dos gatos, que chegou às estradas confusas de minha mente pelo meu caro Robert Darnton e pela minha professora de antropologia (a vocês, agradeço), ampliou meus horizontes de crítica, aumentou minha capacidade de risos e me colocou numa situação de desespero. Devo devolvê-lo à biblioteca amanhã e preciso terminar a leitura. Por estas e outras, deixarei meus outros textos para publicações posteriores, e, no dever de indicar esta maravilhosa obra, deixo apenas um trecho que todos deveriam ler. Grato.

“Ele está tão cansado, e precisa tão desesperadamente descansar que a cabana parece-lhe um palácio. Finalmente, a perseguição e miséria que sofreu durante o dia inteiro terminaram, e pode relaxar. Mas não, alguns gatos endemoniados celebram um sabá das bruxas a noite inteira, fazendo tanto barulho que lhe roubam o breve período de repouso conferido aos aprendizes, antes que cheguem os assalariados para o trabalho, bem cedo, na manhã seguinte, e peçam admissão, tocando constantemente uma campainha infernal. Então, os rapazes têm de se levantar e atravessar o pátio, tremendo sob suas camisolas de dormir, para abrirem a porta. Esses assalariados jamais se mostram amáveis. Por mais que se faça, sempre acham que estão perdendo tempo e sempre tratam a pessoa como um inútil. Chama Léveillé. Acenda o fogo debaixo do caldeirão! Pegue a água para as tinas! [...] Assim, todos logo estão trabalhando – aprendizes, assalariados, todos – menos o patrão e a patroa: apenas eles gozam a doçura do sono. O que dá inveja a Jerome e Léveillé. Decidem que não serão os únicos a sofrer; querem ver na mesma situação seu patrão e a patroa. Mas, como produzir o efeito desejado?

Léveillé tem um talento extraordinário para imitar as vozes e os menores gestos de todos em torno dele. É um perfeito ator; esta é a verdadeira profissão que escolheu na oficina. Também pode produzir imitações perfeitas dos uivos de cães e gatos. Decide ir trepando de um telhado para outro, até chegar a uma calha próxima ao quarto do burguês e da burguesa. Dali, pode emboscá-los, com uma saraivada de miaus. Tarefa fácil para ele: é filho de um telhador e sabe engatinhar pelos telhados como um gato.

Nosso atirador de tocaia obtém tanto sucesso que toda vizinhança fica alarmada. Corre o boato de que há feitiçaria em ação e os gatos podem ser os agentes de alguém que está enfeitiçando. [...] Ninguém mais consegue dormir.

Léveillé encena um sabá, na noite seguinte, e na próxima. Se a pessoa não o conhecesse, ficaria convencida de que ele era um feiticeiro. Finalmente, o patrão e a patroa não podem mais suportar aquilo. “É melhor dizermos aos rapazes para se livrarem desses animais malévolos”, declaram. Madame lhes dá a ordem, recomendando-lhes que evitem assustar la grise. É o nome de sua gatinha de estimação.

Esta senhora é apaixonada pelos gatos. Muitos donos de gráficas o são. um deles tem vinte e cinco. Mandou pintar seus retratos e os alimenta com aves assadas.

A caçada é logo organizada. Os aprendizes resolvem fazer uma limpeza completa e os assalariados aderem ao grupo. Um dos homens se arma com a barra de uma impressora, outro com um bastão da sala de secagem, e ainda outros com cabos de vassoura. Penduram sacos nas janelas do sótão e dos depósitos, para pegar os gatos que tentarem escapar pulando para fora. Os batedores são designados, tudo é organizado. Léveillé e seu camarada, Jerome, presidem a festa, cada qual armado com uma barra de ferro da loja. A primeira coisa que saem procurando é la grise, a gatinha de Madame. Léveillé a atordoa com um rápido golpe nos rins e Jeroma a liquida. Depois, Léveillé enfia o corpo numa sarjeta, pois não querem ser apanhados: é um segredo. Os homens provocam terror nos telhados. Tomados de pânico, os gatos se atiram nos sacos. Alguns são mortos na hora. Outros condenados à forca, para o divertimento da gráfica.

Os tipógrafos sabem rir; é sua única ocupação.

A execução está prestes a começar. Designam um carrasco, uma tropa de guardas, até mesmo um confessor. Depois proclamam a sentença. [...]”

(DARNTON, Robert. “O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa”. p136-138.)



Meu livro de cabeceira, literalmente, até amanhã.