A vida é feita de escolhas, e, pelo que me lembro de alguns diálogos em anos passados com meu pouco íntimo amigo Sartre, fazemos sempre a escolha errada. Não por azar ou por falta de experiência, mas porque sempre achamos que a alternativa deixada de lado é melhor. Nunca saberemos se estamos certos. Há algum tempo, me entreguei à loucura. Esta impõe nossos limites alertando-nos com surtos o momento certo de parar. Um tempo depois, em um dos meus surtos, quis ir além, e ser louco, para mim, agora é demais. Nestas últimas semanas, fiz duas importantes e sérias, porém necessárias, escolhas. Certas ou não, não saberei dizer. Alguns conhecidos com quem falei sobre isto me chamaram de louco, o que não deixa de ser um insulto, e que seria perda de tempo. A estes eu digo, meus caros, até nossa mente precisa de um tempo. Meu tempo, agora sagrado, sentado num banco do transporte coletivo não terá a honra de minhas leituras. Meus livros permanecerão guardados na bolsa, que carrega o nome de minha profissão, até um momento oportuno, de tédio ou de necessidade. Mas nos bancos públicos de um ônibus, nunca mais. Primeiro por toda esta questão de leitura, segundo, por repelir, agora, os curiosos que sentam ao meu lado e querem ler comigo. Leitura requer privacidade, um momento íntimo do leitor com o livro. Algo romântico, em que dialoguem e se entendam. Meu livro merecerá estas horas a dois. Por outro lado, estes preciosos momentos de leitura ausente também compreendem uma resistência de minha mente aos pensamentos chatos. Pensar em nada, mente vazia, pra esfriar. Olhar a paisagem, as árvores que correm em sentido contrário, as pessoas sem tempo correndo por aí. E o pensar em nada se estende, então, ao meu horário de almoço. Pretendo saborear o arroz sem gosto e o feijão quase queimado. Não me importa se meu paladar reclamar. Serão momentos de silêncio comigo mesmo. Estas são duas sérias e complicadas, porém necessárias, escolhas, mas parece que apesar de todas as minhas prevenções minha velha conhecida loucura (uma diferente, que só entende quem já a viu, diferente da que o Sr. Aurélio Buarque de Holanda nos apresentou) ainda me persegue pelas ruas da cidade. Num dia destes, em meio aos seguidos dias de chuva, apanhei meu casaco, cachecol, e numa escolha rara, um guarda chuva. Em meio à cidade úmida, onde as gotas de tristeza que banhavam a cidade estouravam na superfície lisa de meu protetor, senti certa angústia no ar. Com Cartola acalmando meus ouvidos, só ouvia o samba e as gotas tocando o chão. Em alguns segundos parados, vi o mundo chorar por mim. O céu caiu e silenciou o caos urbano. O mundo girou em câmera lenta. Vi o céu acinzentado derreter, como um epitáfio de minha morte ideológica, e o vento, repentino, cochichou em meus ouvidos. Ela estava ali. Minha velha amiga em breve voltará.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
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