quinta-feira, 9 de julho de 2009

Risos De Cabeceira.

Bom, meus caros. Tenho alguns textos guardados por aqui, tenho vontade de publicá-los, mas minha preguiça e meu tempo não têm contribuído. De qualquer maneira, estas últimas semanas moveram minha mente com um livro, algumas vezes citado neste humilde blog, extremamente interessante. O grande massacre dos gatos, que chegou às estradas confusas de minha mente pelo meu caro Robert Darnton e pela minha professora de antropologia (a vocês, agradeço), ampliou meus horizontes de crítica, aumentou minha capacidade de risos e me colocou numa situação de desespero. Devo devolvê-lo à biblioteca amanhã e preciso terminar a leitura. Por estas e outras, deixarei meus outros textos para publicações posteriores, e, no dever de indicar esta maravilhosa obra, deixo apenas um trecho que todos deveriam ler. Grato.

“Ele está tão cansado, e precisa tão desesperadamente descansar que a cabana parece-lhe um palácio. Finalmente, a perseguição e miséria que sofreu durante o dia inteiro terminaram, e pode relaxar. Mas não, alguns gatos endemoniados celebram um sabá das bruxas a noite inteira, fazendo tanto barulho que lhe roubam o breve período de repouso conferido aos aprendizes, antes que cheguem os assalariados para o trabalho, bem cedo, na manhã seguinte, e peçam admissão, tocando constantemente uma campainha infernal. Então, os rapazes têm de se levantar e atravessar o pátio, tremendo sob suas camisolas de dormir, para abrirem a porta. Esses assalariados jamais se mostram amáveis. Por mais que se faça, sempre acham que estão perdendo tempo e sempre tratam a pessoa como um inútil. Chama Léveillé. Acenda o fogo debaixo do caldeirão! Pegue a água para as tinas! [...] Assim, todos logo estão trabalhando – aprendizes, assalariados, todos – menos o patrão e a patroa: apenas eles gozam a doçura do sono. O que dá inveja a Jerome e Léveillé. Decidem que não serão os únicos a sofrer; querem ver na mesma situação seu patrão e a patroa. Mas, como produzir o efeito desejado?

Léveillé tem um talento extraordinário para imitar as vozes e os menores gestos de todos em torno dele. É um perfeito ator; esta é a verdadeira profissão que escolheu na oficina. Também pode produzir imitações perfeitas dos uivos de cães e gatos. Decide ir trepando de um telhado para outro, até chegar a uma calha próxima ao quarto do burguês e da burguesa. Dali, pode emboscá-los, com uma saraivada de miaus. Tarefa fácil para ele: é filho de um telhador e sabe engatinhar pelos telhados como um gato.

Nosso atirador de tocaia obtém tanto sucesso que toda vizinhança fica alarmada. Corre o boato de que há feitiçaria em ação e os gatos podem ser os agentes de alguém que está enfeitiçando. [...] Ninguém mais consegue dormir.

Léveillé encena um sabá, na noite seguinte, e na próxima. Se a pessoa não o conhecesse, ficaria convencida de que ele era um feiticeiro. Finalmente, o patrão e a patroa não podem mais suportar aquilo. “É melhor dizermos aos rapazes para se livrarem desses animais malévolos”, declaram. Madame lhes dá a ordem, recomendando-lhes que evitem assustar la grise. É o nome de sua gatinha de estimação.

Esta senhora é apaixonada pelos gatos. Muitos donos de gráficas o são. um deles tem vinte e cinco. Mandou pintar seus retratos e os alimenta com aves assadas.

A caçada é logo organizada. Os aprendizes resolvem fazer uma limpeza completa e os assalariados aderem ao grupo. Um dos homens se arma com a barra de uma impressora, outro com um bastão da sala de secagem, e ainda outros com cabos de vassoura. Penduram sacos nas janelas do sótão e dos depósitos, para pegar os gatos que tentarem escapar pulando para fora. Os batedores são designados, tudo é organizado. Léveillé e seu camarada, Jerome, presidem a festa, cada qual armado com uma barra de ferro da loja. A primeira coisa que saem procurando é la grise, a gatinha de Madame. Léveillé a atordoa com um rápido golpe nos rins e Jeroma a liquida. Depois, Léveillé enfia o corpo numa sarjeta, pois não querem ser apanhados: é um segredo. Os homens provocam terror nos telhados. Tomados de pânico, os gatos se atiram nos sacos. Alguns são mortos na hora. Outros condenados à forca, para o divertimento da gráfica.

Os tipógrafos sabem rir; é sua única ocupação.

A execução está prestes a começar. Designam um carrasco, uma tropa de guardas, até mesmo um confessor. Depois proclamam a sentença. [...]”

(DARNTON, Robert. “O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa”. p136-138.)



Meu livro de cabeceira, literalmente, até amanhã.

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