“Um poeta ou um filósofo pode levar a linguagem aos seus limites, mas a certa altura vai deparar-se com a estrutura externa da significação. Para além dela, jaz a loucura – o destino de Hölderin e de Nietzsche.” (DARNTON, Robert – O grande massacre dos gatos e outros episódios da história cultural francesa, XVIII) Belas palavras, meu caro, acolho-as com todo o carinho, mas devo acrescentar aos tipos de loucos da primeira frase os historiadores, os românticos, os vagabundos e eu.
Sinto-me no dever, como cidadão, meus caros, de chamar-lhes a atenção para algo que vem me deixando grilado há certo tempo. Furar a fila (consideravelmente grande em pleno horário de fome dos presentes) do restaurante da universidade e demorar o máximo possível no bufê (entre os pensamentos e controles entre cada grão de arroz que lota sua bandeja) não é um problema. Nossa natureza deve ser aceita, entendam, não queiram ser diferentes. Desde que nascemos somos ensinados pela malandragem. Nossa politicagem incorreta é que nos faz verdadeiramente espertos. Estacionamos em cima da calçada, atravessamos fora da faixa, bebemos antes de dirigir. Vivemos para desrespeitar leis, a sacanagem ferve em nosso sangue e está sempre pedindo mais, e mais, e mais! Ela nunca se satisfaz. Nosso prazer está em acabar com o dia de alguém, e assim devemos ser, o mundo é dos espertos. O mundo é dos espertos, o mundo é nosso, dominamos, meus caros, o mundo agora é brasileiro. E o que seria do mundo sem o Brasil? O que seria, me respondam, do Brasil sem a esperteza cotidiana de cada um de nós?

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