terça-feira, 30 de junho de 2009

Qualquer Coisa De Um Dia Qualquer.

Mais um dia, mais uma segunda-feira, e ele acorda desanimado. Seus pensamentos distantes daquele quarto o seguravam por mais cinco longos minutos na cama, agarrado ao travesseiro, simplesmente desligado do mundo que o cerca, das pessoas que irão perguntar o motivo de sua tristeza, dos horários a cumprir. Horários estes perdidos entre os cinco minutos estendidos na cama. Já atrasado, decide que não vai se apressar. Levanta devagar, desviando das roupas jogadas pelo quarto, da sua mochila, seus textos, seus livros intermináveis, muda o seu violão (antigo companheiro) de lugar, joga para o lado as anotações, tolices dos dias de confinamento entre aquelas quatro paredes. Tem uma leve viagem pela saudade quando encontra o nome dela em um dos papéis. Se lamentando por desistir de entregá-lo à garota, amassa-o e joga ao lado dos copos sujos, velhos, marcados de café seco, abandonados ao lado do sanduíche meio comido. Depois de retirar suas lembranças dos dias chatos de auto-reflexão, encontra seu rádio. Roda o velho disco, quase furado dos seus amados Beatles. Abre as janelas, esfrega suas mãos com frio, arruma suas coisas para o banho. Ao voltar ao quarto, parado na porta decide que é hora de mudar. Aquela bagunça já o assustava, ele já não é mais o mesmo, seu comportamento mudou e tudo por culpa da saudade. Nervoso com tudo aquilo resolve ir à sua consulta, já com uma hora de atraso. Veste-se mais ou menos bem, na maneira como consegue. Ajeita o cabelo e, em frente ao espelho, novamente treina as palavras, já decoradas, de sua declaração de amor, para se por um acaso o acaso os leve a um café no final da tarde. Rapidamente volta a realidade, desliga seus companheiros musicais, pega seus fones de ouvido, estrategicamente colocados ao lado das chaves, do celular e do livro que precisa ler nesta semana. Deixa o livro. No caminho, simplesmente pensa. No último banco do veículo, mantém-se sério, olhar atento pelo corredor e pelas pessoas estranhas que o acompanham (em pé, ou sentadas, são estranhas), e a calmaria que os fones lhe causam só são interferidas pelo alvoroço que uma velha causa ao entrar na lotação. No consultório, sua paciência está no limite. Pega um copo d’água, e senta. Não lê, mas percorre os olhos pelas figuras do jornal que estava ao seu lado. Ri suavemente ao ver que o jornal era de um ano atrás e que os fatos da capa já tinham sido esquecidos. Aguarda mais meia-hora para ser chamado. Nas próximas duas filas, só tem tempo para pensar nela. Atende à terceira chamada do Médico, e enfim, seu compromisso está resolvido. Recusa de ir ao trabalho, não têm animo para isso. Dirige-se à Praça Tiradentes, um cenário que não via há tempos, tinha saudade também. Sentou-se num banco sob os raios solares para se esquentar. Suas mãos percorreram a textura da madeira velha e por um breve momento, sentiu-se bem e esqueceu seus problemas, mas no final de sua alegria, levou suas mãos à cabeça e lamentou. As coisas poderiam estar diferentes. Cansado de tanta monotonia em seus pensamentos vai almoçar. Não liga muito para o sabor da costela, gordurosa, em sua boca. O arroz com feijão está indiferente. O tempo passa rápido. Paga sua conta, adiciona um refrigerante e uma bala. Sem nada para fazer e com preguiça de voltar para casa resolve andar pela cidade. Sua caminhada já não entrava mais nos planos de vida. Esqueceu das cores da cidade, sua capital, das pessoas que nela vivem, seus amigos que passam despercebidos, do cotidiano. Seus passos lentos pela Rua XV, com seus fones de ouvido, parecia um filme. Ele não sabia qual, mas tinha direito a trilha sonora. Seu andar devagar trouxe a oportunidade de perceber detalhes, coisas que jamais perceberia num dia normal. Os gritos histéricos de uma mulher na esquina, o visual intrigante de um homem do outro lado da rua, acompanhado de uma bicicleta. Alguns turistas tiravam fotos. Um grupo de jovens, que provavelmente matava aulas, pulava sobre os bancos com uma garrafa de qualquer coisa em mãos. Lembrou-se dos seus anos de vida chula, e agradece por ter mudado, pelos anos dourados que presenciou. Parou para observar um barbudo qualquer tocando violão, mesmo sem escutar o que ele cantava, e gostou. Alguns homens meio estranhos lhe ofereceram uns adesivos engraçados, mas recusou. As pessoas normais, apressadas, batiam seus ombros pela rua. Ele, já cansado de ser empurrado naquele trânsito de atrasados, começou a achar graça na importância que as pessoas dão aos horários, e sorri por lembrar que não tem horários naquele dia. Depois de muitas horas de nostalgia, vai à universidade conferir suas notas, antes de retornar à sua casa. Sorri, e não diz nada, ao ver no edital que, dessa vez, enfrentaria poucos exames finais. Vai para casa. Tranca-se no quarto e só sai para comer. Seus pais resolvem falar alguma coisa que ele não presta atenção. De cabeça baixa, encostado no balcão da sala, sabe que eles estão preocupados com alguma coisa, mas simplesmente ouve e sai, desejando-lhes boa noite. Não está triste, não está feliz. Pensa no seu dia, isso o traz conforto. Percebe então que cada pessoa ao seu redor tem uma importância, são todos conhecidos. Ocupam cargos em sua vida. Sua amada, a velha, os estranhos, os normais e seus pais no final do dia. Acha que sua página na internet merece então algumas palavras sobre seu dia. Os outros precisam saber que ele reconhece a amizade oculta nas personalidades frias que andam pela cidade. Empenha-se em seu texto, escreve algumas linhas tortas e publica. Uma hora da madrugada. Deita-se, se encolhe na cama pra se esquentar. Lembra dela novamente e sorri. Seu coração, sufocado pela saudade, agora adormece confortável.



"Os meus olhos vibram ao te ver, são dois fãs um par. Dona dos meus olhos é você..." Lovely Nando Eller.

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