Hoje voltei à vida mais ou menos ao meio-dia com o barulho do telefone. Que barulho infernal. Os despertadores deveriam ser proibidos, assim como aqueles vizinhos que adoram nos acordar do sono eterno. Bem, minha noite de morte foi consideravelmente boa, mas a vida não mudou mesmo. Estava eu fazendo meu almoço, acompanhado de minha fome e gula, quando uma menina aos maus trapos bate à minha porta. Se eu fosse qualquer destes robôs globalizados abastecidos pelo dinheiro a mandaria embora aos chutes, mas, como havia acabado de morrer socialmente, preferi ficar ali. Ela gastou alguns preciosos segundos da vida dela me dizendo algo que eu não prestei atenção devido à ressaca da noite passada, algo como irmãos cachorros que soltam gases, ou, o que seria mais estranho, irmãos menores que estão com fome, mas isso não vem ao caso. Ainda em meu estado vegetativo virei minhas costas para ela, mas mantive a porta aberta, e me dirigi até a cozinha. De dois em dois passos me virava pra ter certeza que ela ainda estava ali. De dois em dois passos ela me olhava com olhos vermelhos cheios de água. Quando cheguei à cozinha, estavam postas à mesa minha fome e minha gula. Sem nem perguntar agarrei algumas tigelas de porte médio e puxei comigo minha gula, a fome ficava, a menina não precisava dela. Coitada, minha gula era tanta que a garota ficava desajeitada. Fechei a porta de meu canil e voltei ao meu precioso café da manhã em horário de almoço. Em um flash de memória que minha fraca mente forçou-me a ver lembrei-me daquele compromisso de engravatados que vestem all-star. Meia hora pra me arrumar, não era muito tempo. Deixei minha fome pela metade e me tornei apresentável. Vi que era tempo de correr atrás de minha condução e a perdi quando algo me chamou mais a atenção. Ali, na beira da rua de minha casa, deparei-me com minha gula jogada às traças, esparramada pelo chão. As tigelas que a acompanhavam devem ter fugido. A garota, nem sinal. Acho que vi alguns cães por perto, por um momento pensei que seriam os irmãos da tal, mas não, ela não parecia um canino. Droga! Perdi meu ônibus, agora me dei conta. Maldito mundo dos horários, odeio eles. Sem problemas, espero aqui. O difícil é ficar ao lado dos restos, nem tão restos, mortais da minha querida gula. Ah, gula, terá você ido para onde agora? Estaria feliz se tivesse tido seu merecido fim: o paraíso estômago da criança faminta.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
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